Publicidade

MALAGUETA por Iran de Souza

Homens de todo o mundo, reinventai-vos!

por Iran de Souza

Imagem gerada por IA
Homens de todo o mundo, reinventai-vos! Os homens moldaram o mundo. E deu no que deu: a humanidade e o planeta estão em risco




(1)

Um espectro ronda o mundo masculino: o espectro da emancipação das mulheres. Tão velhas como velhacas, as potências mais retrógradas do Ocidente e do Oriente unem-se em uma Santa Aliança para tramar contra a libertação feminina do domínio milenar dos homens.

São elas a trinca monoteísta — dogmática, obtusa e atavicamente misógina; os donos do capital — senhores do tempo, do trabalho e dos destinos alheios; e a extrema-direita neofascista — fonte perene de hipocrisia, preconceitos, falso moralismo e mentiras.

Duas conclusões decorrem desses fatos.

Primeira: o feminismo é uma potência crescente e irrevogável da vida social. 

Segunda: mirando o exemplo dado não pelas mulheres de Atenas, que viviam a esperar seus maridos voltarem da ágora, da guerra ou de outras alcovas, mas por aquelas que encabeçaram a Revolução Sexual de quase setenta anos atrás, já passa da hora de os homens também se reinventarem.

(2)


Juntamente com as guerras, os genocídios, a Inquisição, a pilhagem das colônias, o etnocídio de populações nativas, a escravidão, o Holocausto e os gulags, a dominação dos homens sobre as mulheres também mancha e envergonha a história humana.


Portador de um órgão rugoso entre as pernas, um penduricalho grotesco que a tradição cultural forjou como símbolo de poder, o bicho-homem — o do cromossomo XY — sai do útero materno já com ambição de controle. Nasce imbuído de complexo patriarcal, supondo que veio ao mundo para mandar. 


Todavia, como lembram o Dr. Freud e seus avatares, o macho não controla nem as subidas e descidas do próprio membro. Este é dado a negar fogo quando chamado, in loco, aos saborosos ofícios da carne; e a incendiar-se, pondo-se ereto e rijo, nas horas inertes do sono e nas horas produtivas do expediente.


Intermitências fisiológicas à parte, os destinos aos quais a masculinidade conduziu o mundo e a si própria, com seu poder de mando e sua propensão à neurose, são deletérios — os piores possíveis. O planeta e todas as espécies animais e vegetais estão por um triz. Supõe o Dr. Hawking que não durem nem mais um milênio. Só os negacionistas não ouvem, porque não querem escutar, o tique-taque da bomba-relógio.


(3) 


A masculinidade está em crise. E não é de hoje. Há pelo menos duzentos anos, quando as mulheres mais esclarecidas e insurgentes começaram a exigir direitos como votar, ter profissão, participar da vida pública e mandar no próprio corpo — a começar por suas belas, cobiçadas e deleitosas partes íntimas —, a macharada entrou em parafuso.


De lá para cá, os homens veem-se obrigados a aceitar, a contragosto, que as mulheres são mais que objetos de seu prazer unilateral, de suas necessidades reprodutivas, de sua vaidade de exibi-las como troféus e de sua obsessão por transmitir parecença, herança e propriedade a herdeiros legítimos.


Iguais em inteligência e capacidade, as mulheres crescem e aparecem como seres de razão, vontade e trabalho. Provam, desta maneira, que seu destino não é executar tarefas medíocres que os homens julgam não lhes competir: limpar a casa, lavar a roupa, cozinhar, criar os filhos...


Homem, para ser homem com h maiúsculo no século 21, há de colaborar na gestão doméstica: pilotar fogão, comandar churrasqueira, cuidar da louça, trocar fralda suja e fedorenta de cocô, lavar as calcinhas e os sutiãs da mulher, se preciso for, fazer compras, marcar presença na vida e na educação dos filhos. 


Porque pai ausente não é pai: é contraparente. E marido faltoso é candidato a ser rebaixado  de titular para reserva, senão a ter o contrato matrimonial rescindido por incompetência para a vida em comum.



"O juramento dos Horácios" (1784), de Jacques-Louis David: homens ocupados com jogos de poder e guerra

na Roma antiga; mulheres mantidas à sombra de seus maridos e fora da vida pública


(4)


O lado mais sombrio e vexaminoso do mundo masculino é o da violência. Nisso o Homo sapiens macho equipara-se aos orangotangos e aos chimpanzés, primatas dados a espancar, estuprar e matar as fêmeas para provar seu poder sobre elas. 


Ora, não é o que os machos primatas humanos também têm feito, exibindo toda a sua selvageria, desde que o mundo é mundo? Bruta e desarrazoadamente, eles têm agredido, violentado e matado as mulheres quando elas os chamam à realidade, olho no olho, e confessam não aguentar mais a vida besta que levam, admitem não mais amá-los e comunicam que seguirão adiante sozinhas ou com outro parceiro. 


Por isso, mas também por menos, muitos as surram e assassinam, tantas vezes com tiros e facadas pelas costas. Em outros casos, quando elas se vão, não suportam vê-las ficar ainda mais bonitas, gostosas, joviais e independentes do que jamais haviam sido ao lado deles.


Embora não tenham remorso de traí-las — porque o touro-homem pode pular cercas para se provar duas vezes macho —, quando elas fazem o mesmo eles se vingam espancando-as, às vezes matando os próprios filhos que tiveram com elas, depois enfiando uma bala no próprio ouvido para que as mulheres sintam-se eternamente culpadas pela tragédia.


Pior ainda: nos recônditos da vida privada, onde se escreve o romance familiar, quantos não são os pais, avôs, tios, irmãos, primos, patrões e amigos da família que abusam de meninas impúberes ou recém-chegadas à puberdade? 


Do Brasil ao Afeganistão, de Moçambique à Rússia, quantas garotas têm sido interrompidas por esses algozes da inocência? Moralistas que, da porta da rua para fora, bradam discursos contra o aborto, as drogas, a homossexualidade, o ateísmo, o comunismo, e afirmam que pedófilos, assim como o inferno, são os outros. Tais são os porta-vozes da decência, da religião, da pátria, do divino e dos bons costumes.


E tal é o bicho-homem — o mesmo de sempre —, o do cromossomo XY.


(5)


Por que a emancipação feminina assusta tanto os homens? Certamente é porque raros são os que não tremem os cambitos, sujam as calças e negam fogo diante de uma mulher independente, empoderada, dona do próprio nariz.


Relate-se aqui o que se passou com K., um velho e bom amigo do colunista, no começo da década de 1990. Assistente de marketing em uma rede de supermercados, ele ganhava um salário modesto, para não dizer de fome, e circulava pela cidade num carro velho. 


K. conheceu T. numa reunião de trabalho. Advogada, pós-graduada em direito comercial, poliglota, colecionadora de carimbos no passaporte, dona de um corpo esbelto e de indescritíveis olhos de turmalina, ela o impressionou pela beleza, inteligência e ar serelepe. Ambos beiravam os trinta anos. 


Por telefone, K. e T. combinaram um date. Ele propôs uma pizzaria popular; ela preferiu um sofisticado restaurante japonês. Entre sorrisos e olhares sugestivos, devoraram sem pressa um verdadeiro iate de sushis e sashimis. Porém a conta veio mais salgada que o molho shoyu. Ao dividi-la com T., K. ficou sem grana para abastecer o carro no dia seguinte. 


Despediram-se com um cheiro. Beijaram-se sôfrega e longamente no segundo encontro. E o desejo mútuo teria se consumado em bela fusão de corpos, no terceiro, se algo formidando não tivesse acontecido.


— O quê? — quis saber este colunista.

— Nada... não aconteceu nada — admitiu K.

— Isso é normal, rapá. É o nervosismo da primeira vez. Mas nas outras deu tudo certo, né? Só sucesso! Fortes emoções no vaivém dos quadris! Tu e ela tocaram juntos a Nona Sinfonia de Beethoven, com direito àquele coro orgástico no final. Conta aí, mermão.

— Nem a primeira, nem a quinta, muito menos a nona sinfonia. Não rolou nem um dueto básico de flauta e violão entre nós, camarada.


Constrangido, K. admitiria depois ao colunista e a outro amigo: tentara, é verdade, mas jamais conseguira transar com T. Nem na casa dele, nem no apartamento dela, nem no motel, em lugar nenhum, naquele tempo em que certos aditivos da cor do céu ainda não tinham sido criados em laboratório para livrar os homens de tais vexames, ele foi aos finalmentes com a mulher incrível que o destino pusera em seu caminho.


— Sabe o que é? Ela é muita areia pro meu caminhãozinho. Quando eu ia imaginar que uma deusa daquela, completa de tudo (inteligência, beleza, caráter), se interessaria por mim?


Após a confissão de K., e não sem antes pedir outro chope ao garçom, o terceiro elemento à mesa soltou esta pérola da masculinidade recalcada:


— Sabe qual é o teu problema, K.? É a tua preferência por mulheres inteligentes. Mulher tem que ser burra, rapá! Tem que ser tapada. Assim não compete com a gente. Vive ali na tua sombra, ó, só faz o que tu quer, o que tu manda, na horinha que tu deseja. Vê se depois dessa tu aprende, mané.


K. e o colunista entreolharam-se, sem comentários.


(6)

Se é que desejam reinventar-se, os homens devem baixar a guarda e a cabeça, desempinar o nariz e o pescoço, e aprender mais da vida e do mundo com as mulheres. Aprender que não é não. Aprender a sair de si em direção ao Outro. Aprender a compartilhar. Aprender a cuidar. Aprender a ouvir. 

Ouvir não é a grande arte nem a maior competência masculina, como observa Maria Homem: ouvir a companheira de vida, os filhos, os pais, os irmãos, os amigos, a comunidade e as vozes que clamam por solidariedade e justiça num mundo tão desigual. 

O fato é que, por se suporem the best in the world, os homens, mais que as mulheres, nutrem verdadeira paixão pela desigualdade. Urge que sejam mais humanos. E para isso, como canta o Orfeu baiano Gilberto Gil, hão de explorar a própria porção mulher que em si resguardam. A porção da alteridade, da escuta, da verdade, da beleza e do amor.

Mas cuidado, senhores! Só os parvos e os mal-intencionados, com sua baixa capacidade de discernimento e vazio de bom senso, apregoam que o farol para iluminar a reinvenção do mundo masculino aponta necessariamente para a tradição patriarcal. Há que falar sério: as potências que constituíram a supremacia dos homens no tempo e no espaço estão devidamente desmascaradas pelos fatos e pelos próprios atos.  

Aquele que busca uma forja para remodelar o comportamento e o próprio caráter não a encontrará, certamente, no monoteísmo, com sua divindade autoritária, cruel e vingativa; na economia do capital, com seu ethos individualista e sua obsessão por riquezas; nem na vulgaridade neofascista da extrema-direita, com sua mitologia ordinária, sua mitomania e sua apologia da violência e da masculinidade dominante.

Contardo Calligaris e Paulo Schiller, em suas considerações sobre o abismo da alma humana, alertam: o que o laboratório da tradição produz na esfera privada, com alta eficiência, é primeiramente o moleque mimado — o menino-diabo que depois vira boy lixo e, por fim, transforma-se em macho alfa. Um macho escroto e tóxico que se faz ainda pior quando opera em modo legião, ou seja, quando age em bando, ao modo de seus contraparentes da floresta. Não por acaso, o que sai do mesmo laboratório para a vida pública são autocratas, ditadores e tiranos que mancham ainda mais a história de sangue.

Já deu! Chega de vexame! Tá feio! Tá vergonhoso demais!

HOMENS DE TODO O MUNDO, REINVENTAI-VOS! 


Post scriptum: mergulhado até o pescoço nas contradições do mundo masculino, o colunista não conseguiu escrever este texto em primeira pessoa. Travou. Recuou. Acovardou-se. Tal é o bicho-homem — o do cromossomo XY.



Iran de Souza [Irisvaldo Laurindo de Souza] é jornalista, professor universitário, doutor e pós-doutorando em Letras, na área de Literatura. Escreve quinzenalmente no Portal Rede Metrópole.









COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.