Cinema & Contexto - Crítico de Cinema e Audiovisial, Rogério Parreira
CONSPIRAÇÃO PELA LIBERDADE
Conheça os detalhes desta obra histórica - premiada internacionalmente - e filmada no Pará.
Conspiração pela Liberdade: O grito do Araguaia que o tempo não pode apagarEntre todas as artes, para nós o cinema é a mais importante, escolhi esse pensamento do Vladimir Ilich Lênin, líder comunista da revolução russa para iniciar essa resenha sobre o filme “Araguaya - A Conspiração do Silêncio” do cineastaRonaldo Duque, já que se trata da saga de um grupamento político do PC do B (Partido Comunista do Brasil) na região do Araguaia, fato histórico e pouco conhecido denominado “Guerrilha do Araguaia”.
Segundo depoimento do Duque, quando veio em Marabá/PA implantar uma estação de TV em1972, ouviu rumores de uma grande “confusão” na região. E com a curiosidade aguçada de um bom documentarista e contador de histórias, começou a sua pesquisa que levaria 20 anos, sobre a guerrilha implantada na conexão da Amazônia com o Cerrado. Sendo a primeira virtude do excelente roteiro cinematográfico do filme, com uma extensa e profunda pesquisa, que além de servir como base central da narrativa, alimentou com preciosas informações a Comissão Nacional da Verdade, instaurada no Governoda Dilma Roussef, para apurar os crimes e abusos cometidos pela ditadura militar.





Araguaya - A Conspiração do Silêncio é um filme de ficção com personagens que na sua totalidade representam pessoas reais da história, sendo que alguns como PadreChico, missionário Jesuíta, interpretado pelo francês Stephane Brodt representa três Padres que existiram realmente, com destaque para o Dom Alano Maria Pena (bispo de Marabá).
Então com tanto conteúdo histórico pesquisado, Duque vai tecendo a narrativa de forma didática, sobre os anos de chumbo, contextualizando o início do filme com informações e imagens documentais, incluindo depoimentos importantes como doconhecido político José Genuíno ( Ex-Presidente nacional do PT), que participou da guerrilha, assim como do João Amazonas, Presidente Nacional do PC do B.
O PC do B, inspirado nas experiências da revoluções chinesa e cubana, planejou a Guerrilha do Araguaia, acreditando na guerrilha rural como estratégia de mobilização do campo como primeiro passo para ganhar força revolucionária. Plano que começou a ser colocado em prática em 1968, com deslocamento gradual de aproximadamente 70 militantes, em sua grande maioria estudantes e profissionais liberais. Que carregavam uma generosidade sem limites no coração, não aceitavam a privação da liberdade política imposta pelo regime das sombras e estavam ansiosos por reformas profundas em nosso país, marcado pelas abissais desigualdades sociais e entregue ao interesse geopolítico norte americano.

O filme é contado a partir da visão do padre Chico, um religioso francês que chegou à região do Araguaia no início dos anos 60. Que se liga intensamente com os moradores da região e vive um conflito existencial através da sua missão religiosa. Ponto de inflexão que permite um envolvimento imparcial com a guerrilha, sem se comprometer com o ponto de vista do PC do B e tão pouco com a versão oficial das forças armadas. Podemos dizer que o padre Chico tem uma sinergia ideológica com os guerrilheiros: a solidariedade irrestrita à condição de abandono e miséria que vive os camponeses, embora não concorde com via armada para resolução dos problemas.
Entre os guerrilheiros, um personagem real, chama atenção, virou até mito no Araguaia, Osvaldão interpretado pelo talentoso e saudoso ator paraense Norton Nascimento. O Osvaldão era um homem negro com 2 metros de altura, campeão de boxe pelo Vasco da Gama, engenheiro mecânico formado na Tchecoslováquia e com treinamento militar na China. Lidercarismático, ganhou fama por ser um habilidoso atirador, com a lenda de ter ocorpo fechado, impenetrável as balas, gerando grande temor entre os militares.



Temos no elenco a brilhante atriz brasileira Françoise Forton que interpreta a guerrilheira Dora. Cacá Amaral, Danton Mello e Fernando Alves Pinto são outros grandes atores consagrados presentes no elenco, os dois primeiros fazendo papeis de dirigentes do PC do B e o último papel de um dos militares do Exército que encabeçou a investida contra os cahamados "subversivos".
Duque também temperou a produção com dois geniais atores paraenses: Nilza Maria, atriz consagrada, com mais de 70 anos de dedicação aoteatro e cinema, pioneira na rádio novela e de um carisma e genialidade singular, interpreta uma camponesa da região. E não menos talentoso o ator Adriano Barroso, referência no teatro, preparador de elencos, com mais de 30 peças na carreira e atuou em mais de uma dezena de filmes locais e nacionais,interpreta um camponês que adere a luta armada. E não poderia deixar de registara participação magistral do ator paraense mirim Igor Fonseca, que representa as crianças do Araguaia e hoje um jornalista renomado e não por acaso, editor chefe do site rede metrópole.




A maior parte das cenas se concentra em uma vila cenográfica construída ao longo de 8 meses na antiga fazenda da pireli, no município de Marituba, para representar a região do Araguaia, mesmo lugar onde o Hector Babenco filmou “Brincando nos campos do Senhor”. Foi aberta uma estrada de 6 km exclusiva para se chegar ao local das filmagens, mas que devido ao inverno amazônico ficou submersa e o acesso ficou restrito por via marítima.



Destaco esse fato para evidenciar o esforço hercúleo que a produção teve que realizar para garantir a realização da película, entre tantas outras dificuldades que tiveram que superar com muita habilidade e talento, como a representação do helicóptero utilizado pelas forças armadas, com auxílio de computação gráfica e também o transporte rodoviário de embarcações para o rio caraparú no munícipio de Santa Izabel, na cena do encontro dos destacamentos guerrilheiros.



Considerando também o exaustivo treinamento dos atores na mata para as cenas decombate. Para uma produção cinematográfica na região metropolitana de Belém, todo elogio é pouco para o primoroso e perfeito resultado alcançado.
Em relação as informações históricas, foi a maior mobilizaçãodas forças armadas depois da segunda guerra mundial, em várias campanhas de1972 à 1974, quase 20.000 homens contra menos de 200 guerrilheiros (uns 60 militantes e aproximadamente 120 camponeses que aderiram ao movimento).
Os militares promoveram uma verdadeira carnificina na região, onde não só os guerrilheiros foram vítimas, me refiro aos que foram capturados vivos ou se entregaram, mas muitos camponeses inocentes sem qualquer envolvimento com a luta armada, que foram submetidos à atrozes torturas e até a morte.



Guerrilheiros foram decapitados, com amputações de mãos e pés, verdadeiro terrorismo praticado pela ditadura militar, a partir de relatos dos próprios soldados que estiveram na região, sendo que muitos deles até hoje carregam sequelas psicológicas por terem participado desse circo de horrores e praticado atos de imensurável crueldade contra vidas humanas.
Estimativas oficiais indicam que cerca de 60 militantes do PC do B morreram, a grande maioria executada após a captura e uns 40 camponeses mortos ou desaparecidos. O número de militares mortos em combate não foidivulgado e sendo tratado com dado sigiloso, sendo que se sabe que nasprimeiras campanhas enviaram recrutas recém formados entre 18 e 20 anos, com pouca experiência na selva e foram facilmente abatidos pelos guerrilheiros entocados e preparados na mata.



O filme cumpre a indelével missão de representar um fato histórico, de suma importância para gerações atuais e futuras, recorte de um tempo recente que não devemos apagar da memória, onde os direitos políticos e democráticos dos cidadãos foram caçados. E muitos jovens repletos de ideais dejustiça, liberdade e igualdade se lançaram para luta armada.
A guerrilha do Araguaia é um dos exemplos das inúmeras ações promovidas por dezenas de grupos revolucionários que brotaram no Brasil, comovozes que não se curvaram diante do regime sombrio, cruel e terrorista.
Precisamos visitar o passado para corrigir erros e avançar para o futuro, na vida e na história, nesse sentido o filme “ Araguaya - A Conspiração do silêncio” joga um papel importante e sensibiliza através de um roteiro criativo, bem encenado em locação amazônica, fazendo o bom cinema brasileiro enraizado em fatos.
Ilumina o presente, fortalece a democracia, para que tenhamos sempre garantida, a liberdade de expressão política e possamos a cada dia conspirar por uma sociedade livre das injustiças, mazelas sociais e todas as formas deopressão e tirania.




Gostaria de dedicar esse artigo a memória do amigo de vida e de militância política nos tempos de movimento estudantil, Paulo Fonteles Filho, muito estimado por todos, que se dedicou em pesquisas importantes e buscas dos restos mortais dos desaparecidos políticos da guerrilha do Araguaia e forneceu dados importantes para Comissão Nacional da Verdade.
Viva o Paulinho Fonteles e todos Mártires da democracia que tombaram no Araguaia e no Brasil!

Leia também: (CLIQUE AQUI!) Premiado filme sobre a Guerrilha do Araguaia pode desaparecer sem restauração urgente - Estado e sociedade precisam se mobilizar para resgatar obra histórica - premiada internacionalmente - e filmada no Pará.
Premiações nacionais e internacionais:
Melhor filme - New York Brazilian Film Festival
Prêmio Especial da Crítica - XX Festival de Cinema Latino Americano - Trieste-Itália
Prêmio Especial do Júri no 32º Festival de Cinema de Gramado.
Elenco principal e personagens coadjuvantes:
Northon Nascimento: Interpreta Osvaldão (Osvaldo Orlando Costa), o lendário estudante de engenharia treinado na China.
Françoise Forton: Interpreta Dora, personagem que simboliza a força das mulheres combatentes no conflito.
Danton Mello: Interpreta Carlos / André Grabóis, o jovem revolucionário filho de Maurício Grabóis.
Cacá Amaral: Interpreta Mário / Maurício Grabóis, dirigente histórico do PCdoB e deputado constituinte.
Claudio Jaborandi: Interpreta o Cabo Abdon, representante da face sórdida da repressão militar.
Rosanne Mulholland: Interpreta Alice, inspirada na guerrilheira sobrevivente Criméia Alice.
Stephane Brodt: Ator francês que interpreta o
Padre Chico: Narrador da história e inspirado nos dominicanos expulsos do país.
Thierry Tremouroux: Ator belga que interpreta o Padre Roberto.
Narciza Leão: Interpreta a Guerrilheira Lúcia.
Fernando Alves Pinto: Interpreta o Tenente Álvaro.
Pablo Peixoto: Interpreta Geraldo, personagem baseado em José Genoíno.
Fernanda Maiorano: Interpreta Tininha, Guerrilheira protagonista do filme.
Rômulo Augusto: Interpreta o Guerrilheiro Flávio.
William Ferreira: Interpreta o médico e guerrilheiro Juca.
Adriano Barroso: Interpreta o camponês Anselmo
Ator Mirim Igor Fonseca: Interpreta o "filho" adotivo do Guerrilheiro Osvaldão
Além de diversos outros renomados atores e atrizes paraenses, como: Alberto Silva Neto, José Leal, José Gondim, Nilza Maria, Mendara Mariani entre outros importantes personagens desta história que jamais deverá ser esquecida.






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