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Brasil,21/04/2026

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Cinema & Contexto - Crítico de Cinema e Audiovisial, Rogério Parreira

CONSPIRAÇÃO PELA LIBERDADE

Conheça os detalhes desta obra histórica - premiada internacionalmente - e filmada no Pará.

FOTOS: Carlos Silva / Renato Chalú
CONSPIRAÇÃO PELA LIBERDADE Conspiração pela Liberdade: O grito do Araguaia que o tempo não pode apagar


Entre  todas as artes, para nós o cinema é a mais importante, escolhi esse pensamento  do Vladimir Ilich Lênin, líder comunista da revolução russa para iniciar essa  resenha sobre o filme “Araguaya - A Conspiração do Silêncio” do cineastaRonaldo Duque, já que se trata da saga de um grupamento político do PC do B  (Partido Comunista do Brasil) na região do Araguaia, fato histórico e pouco  conhecido denominado “Guerrilha do Araguaia”.

Segundo  depoimento do Duque, quando veio em Marabá/PA implantar uma estação de TV em1972, ouviu rumores de uma grande “confusão” na região. E com a curiosidade  aguçada de um bom documentarista e contador de histórias, começou a sua  pesquisa que levaria 20 anos, sobre a guerrilha implantada na conexão da  Amazônia com o Cerrado.  Sendo a primeira  virtude do excelente roteiro cinematográfico do filme, com uma extensa e  profunda pesquisa, que além de servir como base central da narrativa, alimentou  com preciosas informações a Comissão Nacional da Verdade, instaurada no Governoda Dilma Roussef, para apurar os crimes e abusos cometidos pela ditadura  militar.


Araguaya  - A Conspiração do Silêncio é um filme de ficção com personagens que na sua  totalidade representam pessoas reais da história, sendo que alguns como PadreChico, missionário Jesuíta, interpretado pelo francês Stephane Brodt representa  três Padres que existiram realmente, com destaque para o Dom Alano Maria Pena  (bispo de Marabá).

Então  com tanto conteúdo histórico pesquisado, Duque vai tecendo a narrativa de forma  didática, sobre os anos de chumbo, contextualizando o início do filme com  informações e imagens documentais, incluindo depoimentos importantes como doconhecido político José Genuíno ( Ex-Presidente nacional do PT), que participou  da guerrilha, assim como do João Amazonas, Presidente Nacional do PC do B.

O  PC do B, inspirado nas experiências da revoluções chinesa e cubana, planejou a  Guerrilha do Araguaia, acreditando na guerrilha rural como estratégia de  mobilização do campo como primeiro passo para ganhar força revolucionária.  Plano que começou a ser colocado em prática em 1968, com deslocamento gradual  de  aproximadamente 70 militantes, em sua  grande maioria estudantes e profissionais liberais. Que carregavam uma  generosidade sem limites no coração, não aceitavam a privação da liberdade  política imposta pelo regime das sombras e estavam ansiosos por reformas  profundas em nosso país, marcado pelas  abissais desigualdades sociais e entregue ao interesse geopolítico norte  americano.


O filme é contado a partir da visão do padre Chico, um religioso  francês que chegou à região do Araguaia no início dos anos 60. Que se liga  intensamente com os moradores da região e vive um conflito existencial através  da sua missão religiosa. Ponto de inflexão que permite um envolvimento  imparcial com a guerrilha, sem se comprometer com o ponto de vista do PC do B e  tão pouco com a versão oficial das forças armadas. Podemos dizer que o padre  Chico tem uma sinergia ideológica com os guerrilheiros: a solidariedade  irrestrita à condição de abandono e miséria que vive os camponeses, embora não  concorde com via armada para resolução dos problemas.

Entre os guerrilheiros, um personagem real, chama atenção, virou  até mito no Araguaia, Osvaldão interpretado pelo talentoso e saudoso ator  paraense Norton Nascimento. O Osvaldão era um homem negro com 2 metros de  altura, campeão de boxe pelo Vasco da Gama, engenheiro mecânico formado na Tchecoslováquia  e com treinamento militar na China. Lidercarismático, ganhou fama por ser um habilidoso atirador, com a lenda de ter ocorpo fechado, impenetrável as balas, gerando grande temor entre os militares.


Temos no elenco a brilhante atriz brasileira Françoise Forton  que interpreta a guerrilheira Dora. Cacá Amaral, Danton Mello e Fernando Alves Pinto  são outros grandes atores consagrados presentes no elenco, os dois  primeiros fazendo papeis de dirigentes do PC do B e o último papel de um dos militares do Exército que encabeçou a investida contra os cahamados  "subversivos".

Duque também temperou a produção com dois geniais atores  paraenses: Nilza Maria, atriz consagrada, com mais de 70 anos de dedicação aoteatro e cinema, pioneira na rádio novela e de um carisma e genialidade  singular, interpreta uma camponesa da região. E não menos talentoso o ator  Adriano Barroso, referência no teatro, preparador de elencos, com mais de 30  peças na carreira e atuou em mais de uma dezena de filmes locais e nacionais,interpreta um camponês que adere a luta armada. E não poderia deixar de registara participação magistral do ator paraense mirim Igor Fonseca, que representa as  crianças do Araguaia e  hoje um  jornalista renomado e não por acaso, editor chefe do site rede metrópole.


A maior parte das cenas se concentra em uma vila cenográfica  construída ao longo de 8 meses na antiga fazenda da pireli, no município de  Marituba, para representar a região do Araguaia, mesmo lugar onde o Hector  Babenco filmou “Brincando nos campos do Senhor”. Foi aberta uma estrada de 6 km  exclusiva para se chegar ao local das filmagens, mas que devido ao inverno  amazônico ficou submersa e o acesso ficou restrito por via marítima.




Destaco esse fato para evidenciar o esforço hercúleo que a produção teve que realizar para garantir a realização da película, entre tantas outras dificuldades que tiveram que superar com muita habilidade e talento, como a representação do helicóptero utilizado pelas forças armadas, com auxílio de computação gráfica e também o transporte rodoviário de embarcações para o rio caraparú no munícipio de Santa Izabel, na cena do encontro dos destacamentos guerrilheiros.



Considerando também o exaustivo treinamento dos atores na mata para as cenas decombate. Para uma produção cinematográfica na região metropolitana de Belém,  todo elogio é pouco para o primoroso e perfeito resultado alcançado.

Em relação as informações históricas, foi a maior mobilizaçãodas forças armadas depois da segunda guerra mundial, em várias campanhas de1972 à 1974, quase 20.000 homens contra menos de 200 guerrilheiros (uns 60  militantes e aproximadamente 120 camponeses que aderiram ao movimento).


Os militares promoveram uma verdadeira carnificina na região, onde não só os guerrilheiros foram vítimas, me refiro aos que foram capturados vivos ou se entregaram, mas muitos camponeses inocentes sem qualquer envolvimento com a luta armada, que foram submetidos à atrozes torturas e até a morte.



Guerrilheiros foram decapitados, com amputações de mãos e pés, verdadeiro  terrorismo praticado pela ditadura militar, a partir de relatos dos próprios  soldados que estiveram na região, sendo que muitos deles até hoje carregam  sequelas psicológicas por terem participado desse circo de horrores e  praticado atos de imensurável crueldade  contra vidas humanas.

Estimativas oficiais indicam que cerca de 60 militantes do PC do  B morreram, a grande maioria executada após a captura e uns 40 camponeses  mortos ou desaparecidos. O número de militares mortos em combate não foidivulgado e sendo tratado com dado sigiloso, sendo que se sabe que nasprimeiras campanhas enviaram recrutas recém formados entre 18 e 20 anos, com  pouca experiência na selva e foram facilmente abatidos pelos guerrilheiros  entocados e preparados na mata.


O filme cumpre a indelével missão de representar um fato  histórico, de suma importância para gerações atuais e futuras, recorte de um  tempo recente que não devemos apagar da memória, onde os direitos políticos e  democráticos dos cidadãos foram caçados. E muitos jovens repletos de ideais dejustiça, liberdade e igualdade se lançaram para luta armada.

A guerrilha do Araguaia é um dos exemplos das inúmeras ações  promovidas por dezenas de grupos revolucionários que brotaram no Brasil, comovozes que não se curvaram diante do regime sombrio, cruel e terrorista.

Precisamos visitar o passado para corrigir erros e avançar para o futuro, na vida e na história, nesse sentido o filme “ Araguaya - A Conspiração do silêncio” joga um papel importante e sensibiliza através de um roteiro criativo, bem encenado em locação amazônica, fazendo o bom cinema brasileiro enraizado em fatos.

Ilumina o presente, fortalece a democracia, para que tenhamos sempre  garantida, a liberdade de expressão política e possamos a cada dia conspirar  por uma sociedade livre das injustiças, mazelas sociais e todas as formas deopressão e tirania.


Gostaria de dedicar esse artigo a memória do amigo de vida e de militância política nos tempos de movimento estudantil, Paulo Fonteles Filho, muito estimado por todos, que se dedicou em pesquisas importantes e buscas dos restos mortais dos desaparecidos políticos da guerrilha do Araguaia e forneceu dados importantes para Comissão Nacional da Verdade.


Viva o Paulinho Fonteles e  todos Mártires da democracia que tombaram no Araguaia e no Brasil!




Leia também: (CLIQUE AQUI!) Premiado filme sobre a Guerrilha do Araguaia pode desaparecer sem restauração urgente - Estado e sociedade precisam se mobilizar para resgatar obra histórica - premiada internacionalmente - e filmada no Pará.



Premiações nacionais e internacionais:

Melhor filme - New York Brazilian Film Festival

Prêmio Especial da Crítica - XX Festival de Cinema Latino Americano - Trieste-Itália


Prêmio Especial do Júri no 32º Festival de Cinema de Gramado.



ASSISTA OS BATIDORES DO FILME: "ARAGUAYA - A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO" - DIRIGIDO PELO CINEASTA RONALDO DUQUE:


Elenco principal e personagens coadjuvantes:

Northon Nascimento: Interpreta Osvaldão (Osvaldo Orlando Costa), o lendário estudante de engenharia treinado na China.

Françoise Forton: Interpreta Dora, personagem que simboliza a força das mulheres combatentes no conflito.

Danton Mello: Interpreta Carlos / André Grabóis, o jovem revolucionário filho de Maurício Grabóis.

Cacá Amaral: Interpreta Mário / Maurício Grabóis, dirigente histórico do PCdoB e deputado constituinte.

Claudio Jaborandi: Interpreta o Cabo Abdon, representante da face sórdida da repressão militar.

Rosanne Mulholland: Interpreta Alice, inspirada na guerrilheira sobrevivente Criméia Alice.

Stephane Brodt: Ator francês que interpreta o 

Padre Chico: Narrador da história e inspirado nos dominicanos expulsos do país.

Thierry Tremouroux: Ator belga que interpreta o Padre Roberto.

Narciza Leão: Interpreta a Guerrilheira Lúcia.

Fernando Alves Pinto: Interpreta o Tenente Álvaro. 

Pablo Peixoto: Interpreta Geraldo, personagem baseado em José Genoíno.

Fernanda Maiorano: Interpreta Tininha, Guerrilheira protagonista do filme.

Rômulo Augusto: Interpreta o Guerrilheiro Flávio.

William Ferreira: Interpreta o médico e guerrilheiro Juca.

Adriano Barroso: Interpreta o camponês Anselmo

Ator Mirim Igor Fonseca: Interpreta o "filho" adotivo do Guerrilheiro Osvaldão

Além de diversos outros renomados atores e atrizes paraenses, como: Alberto Silva Neto, José Leal, José Gondim, Nilza Maria, Mendara Mariani entre outros importantes personagens desta história que jamais deverá ser esquecida.





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