MALAGUETA por Iran de Souza
Cultura, comportamento e política com irreverência
Me dê licença, por favor - Iran de Souza
MALAGUETA
Cultura, comportamento e política com irreverência
Me dê licença, por favor
Iran de Souza
Ô de casa, ô da tela, bom dia, boa tarde, boa noite. Como vai a sua distinta pessoa? Tá de boa na lagoa? Ou o bicho tá pegando? Vá na manha, viu? Num tá fácil pra ninguém não. Quando achar que a maré deu ruim, ruim, ruim, pense no banqueiro bonitão e garanhão que antes só voava de jatinho particular e só pegava loura, mas agora vive ao rés do chão no xilindró, dormindo sozinho, coitado, em cama dura e estreita, vendo o sol nascer quadrado, sem pegar ninguém, levando uma vidinha nada master. Pois é, nada como um dia depois do outro, hein? Então tenha fé, homem ou mulher de pouca fé na vida, e bola pra frente.
De minha parte, sabe aquela música do velho e bom Ivan Lins, Desesperar jamais? Virou o meu mantra. Estoicismo e resiliência são as minhas palavras-chave. Sim, porque se fosse pra desesperar de tanto não e tanta porta na cara que tenho levado já tinha tomado estricnina ou metido uma bala no ouvido, me desmilinguido no tempo e no espaço, voltado ao pó da terra. Pra começo de conversa, sou um homem do século XX, analógico e nostálgico dos bons tempos que vivi e até dos que não vivi. Um jornalista da velha guarda, quero dizer, da era da máquina de escrever e da rotativa, já ultrapassado pela comunicação digital. Um professor doutor concursado mas ainda desempregado por falta de pressa da universidade. Um pós-doutorando dedicado mas sem bolsa de pesquisa. É isso o que eu sou. Mas tô aqui vivinho da Silva, ou melhor, inteirinho de Souza, meu sobrenome de verdade, como você leu no crédito de autoria deste texto.
Bem que tento vez por outra cravar a Mega-Sena, viu?, pra levar aquele vidão de rentista que todo mundo deseja — euzinho aqui também, why not? O Thomas Piketty, com seus belos tratados sobre a desigualdade, que me perdoe. Os rentistas, assim como os bilionários muitos dígitos acima deles na pirâmide da riqueza, podem até ser parasitas sociais e inimigos da democracia, como aponta o economista francês, mas têm savoir vivre como ninguém. Sabem a diferença que faz, no mundo global, neoliberal e meritocrático que nos é dado viver, ostentar marcadores de riqueza como roupas e relógios de grife, carrões e jatinhos de milhões, coberturas e mansões cinematográficas em condomínios exclusivos e inenarráveis. Sabem o que é ter uma vida transnacional e transcontinental com direito a dias e noites calientes no Caribe em belas companhias, a esquiar em Aspen e nos alpes durante o inverno, a saborizar a doce melancolia do outono com tintos de boa cepa em Paris e Nova York, a bronzear o corpo sarado em Trancoso, na Croácia e na Côte-d’Azur a cada verão. Eu só queria uns títulozitos da dívida pública pra irrigar minhas contas bancárias com juros e dividendos, todo mês, até o fim da vida. Mas nem isso me é dado. Nem isso. Como disse, aqui e acolá aposto na Mega-Sena. Marco sempre o 07, o 13 e mais quatro dezenas ao léu, mas meu dia de sorte nada de chegar. É mais fácil, pelo andar da carruagem, vir o meu dia de morte. Que venha então! Tô nem aí. Sigo zoando do tempo e do destino.
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Égua, chega de enrolation, chega de nariz de cera, né?, como se dizia no jornalismo de mil novecentos e antigamente, quando a tinta de jornais matutinos, vespertinos e hebdomadários manchava a mão do leitor e da leitora. Então antes que a indesejada das gentes leve este corpo pardo de 1 metro e 76 centímetros de altura para todo o sempre, como uma dia há de levar o seu corpitcho também, dê licença para eu me apresentar. Sou o novo colunista da casa, quero dizer, do Portal Rede Metrópole. Tenho duas identidades, uma social, para não dizer que é fake, outra verdadeira – esta, claro, resistente a provas e contraprovas. Desde que me entendo por gente, ou seja, desde que descobri o primeiro cabelo branco aos cinco anos de idade, diante da penteadeira, todo mundo me chama de Iran, Iran de Souza, nice to meet you.
Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, nos registros de nascimento, casamento e divórcio — e por extensão no RG, CPF, CNH, certificado de alistamento e diplomas — eu sou o Irisvaldo Laurindo de Souza. Pergunto-me até hoje por que papai Joaquim, certamente mais do que mamãe Maria, fez esta maldade comigo. Cristão convicto que era, homem de fé católica e depois protestante, poderia ter me batizado como Gabriel, Davi, Daniel, Marcos, Lucas, João, Saulo, Paulo, sei lá. Desde que não fosse Jó, Habacuque, Ezequias, Matusalém, Zorobabel ou Lúcifer, o próprio belzebu, eu, que sou ateu mas não tiro graça com o divino como fazia o José Saramago, e presto laica reverência a Nossa Senhora de Nazaré, a boniteza da Nazica, aceitaria de bom grado, sim, um nome bíblico. Não seria legal se me chamasse Daniel Laurindo de Souza? Caraca, eu adoraria. Digam lá, meu mano e minha mana: não seria um antropônimo top?
Bem, se me fosse dado o direito de escolher o próprio nome, chamar-me-ia — atenção para o preciosismo da mesóclise, hein? —Tomás Antônio Gonzaga, Rubem Fonseca, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto ou Haroldo Maranhão. Manuel Bandeira, não, por favor. Bandeira é dos meus poetas prediletos, conterrâneo — como ele, também nasci em Pernambuco, embora esteja há muito marinado no tucupi e vitaminado no açaí do Pará —, mas era muito feio, coitado. Não chego a tanto. Conhecidos e conhecidas de longa data dizem que era, sim, desenxabido quando novo, meio balofo e de cabelos crespos abastados e desalinhados, porém na meia-idade fiquei até bonitinho, grisalho, mais magro, passável e pegável. Minha mulher, por exemplo, não se queixa do meu modesto patrimônio estético. Ela, pelo menos, não. Fora os seis quilinhos a mais que ganhei escrevendo uma tese de doutorado que me inchou um bocado o corpo sedentário, estropiou o Tico e o Teco e abduziu o sono, estou de bem com o espelho, sem aporrinhações nem maiores contradições narcísicas. Quero acreditar que sim.
Mas voltando ao busílis, como dizia um velho camarada e escriba que já passou desta para outra, o André Costa Nunes, voltando ao xis da questão, que diz respeito aos antropônimos de minha preferência, você já percebeu que tenho fixação por escritores, né? Ou, ajustando melhor as palavras, nutro uma velha paixão pela palavra escrita. E essa é, sem dúvida, a origem da minha vocação, bem como dos meus males e alegrias nesta vida que, assim como você, eu não escolhi mas também não recuso viver. O fato é que, como diz o poeta Leminski, prenome Paulo — que nome massa, hein? —, vim sempre pelo caminho difícil, pela estrada que nunca termina, rolando e bolando entre um acostamento e outro da vida. Caminho dificultoso o meu, quase intransitável, mas também irretornável, até porque, como disse outro grande poeta, este da nossa música popular apimentada com rock and roll, o tempo não para, não, não para.
Sabe o que é? É que este negócio de ler e escrever definiu desde priscas eras — como diria com rebuscamento e deboche outro camarada que já não está entre nós, o cumpadi Euclides Farias — o meu caminho no mundo. Nem beijava na boca ainda ou sabia o que era uma transa, embora já colecionasse calendários de mulher pelada e fizesse trabalhos manuais ardentes e solitários no banheiro olhando para elas, quando deixei de lado a bobagem de ser astronauta ou detetive particular ou milionário e anunciei ao meu pai:
— Vou ser jornalista. E também quero estudar literatura.
Sentado num tamborete no alpendre da casa do sítio que tinha nos cafundós do Maranhão, o seu Joaquim amolava o punhal de estimação numa pedra, o mesmo que usava para capar garrotes afoitos e descascar mangas e laranjas maduras. Os óculos quase à ponta do nariz, parou, ergueu as sobrancelhas, e, elevando os olhos acima das lentes bifocais, fixou-os em mim.
— E isso aí dá título de doutor?
— Acho que não.
— Pois era melhor que desse.
Daria, no fim das contas, mas como disse vim por um caminho tão difícil, mas tão difícil que assim como o seu, meu considerado e minha considerada internauta, parece não ter fim. O problema, como diria Ferreira Gullar, outro poeta de cabeceira, é que uma parte de mim sempre teve um pé na realidade, o que explica a minha vocação para o jornalismo, outro na ficção, o que bem justifica o meu gosto pela literatura. E entre um e outro, digo e repito, venho tropeçando e me equilibrando, caindo e levantando a vida inteira até esbarrar em você, aqui e agora, no espaço virtual.

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Falei, falei, tagarelei, mas ainda não me apresentei como prometi, né? Se é que pretende ler a Malagueta quinzenalmente, vá se acostumando... Sou, por assim dizer, um narrador enrolador, aquele que retarda ao máximo dar fecho às narrativas, como o amante que segura o quanto pode o próprio gozo para alongar o coito. Mas tenho escola, viu? Aprendi a técnica com um tal Joaquim Maria Machado de Assis. Não a técnica do rala e rola, evidentemente, mas a de contar seja lá o que for mantendo um pé no acelerador, outro no freio.
Bem, minha folha corrida, quero dizer, meu currículo profissional é longo. Não fiquei rico, não ganhei prêmios, não me tornei nem mesmo subcelebridade, não estive em nenhuma das quase trinta edições do Big Brother, nem quero estar, mas já fiz um bocado de coisa nesta vida. Antes de me profissionalizar como jornalista ao 22 anos, vendi produtos naturais e livros de porta em porta, de repartição em repartição em Belém, Macapá, Paragominas, Marabá, Carajás e mais um punhado de cidades destes sertões do Norte, para dizê-lo à Euclides da Cunha.
Como profissional de imprensa, atuei em rádio, jornal, revista, televisão, assessoria de imprensa, comunicação governamental e marketing político. Fui produtor, repórter, redator, colunista, editor-assitente, editor-chefe, editor-executivo, gerente de jornalismo e diretor de redação em veículos diversos. Assessorei grandes, médias e pequenas empresas, bem como organizações públicas e privadas, na área de comunicação. Dei umas voltas pelo Terceiro Setor. Também fui gestor, diretor e coordenador de comunicação com status de secretário, respectivamente, na Assembleia Legislativa, na Secretaria de Comunicação do Governo do Pará e na Prefeitura de Belém. Entre um afazer e outro como jornalista, também ministrei aulas de redação para o Ensino Médio e coordenei oficinas de jornalismo por um bocado de tempo.
Por volta de 2013, 2014, de saco cheio de tudo, mergulhei numa séria crise pessoal e profissional. O fato é que o jornalismo me engolira e, na luta pela sobrevivência, eu deixara de lado a minha outra vocação — as letras. Então me danei a ler, pesquisar, estudar e escrever como um louco. Deste processo saiu um livro, Crônica Histórica e Sentimental de Belém do Pará, que publiquei em 2016 por ocasião dos 400 anos da cidade, e ficaram pelo meio do caminho outros dois ou três que comecei mas nunca terminei.
Em seguida, dando vazão a uma vontade represada por longo tempo, fiz o mestrado e o doutorado em Letras, na área de Estudos Literários, na Universidade Federal do Pará (UFPA). Neste 2026 em curso faço estágio pós-doutoral em Estudo de Língua e Literatura na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT). Ou seja, superando as expectativas do seu Joaquim, estou perto de me tornar pós-doutor, embora, pra ser sinceiro, não tenha a menor ideia de como monetizar esses títulos e créditos acadêmicos. Antes tivesse traquejo para criptomoedas, especulação em bolsa, imobiliária, direito penal ou engenharia de dados, áreas em que se ganha dinheiro a rodo. Fazer o quê, né? Paca tatu, cotia não, cada macaco no seu galho. E o meu tá quase quebrando.
Pra ser sincero, as minhas competências são bem poucas — ler, pesquisar, escrever, não mais que isso. Pra piorar, todas em baixa nestes tempos de inteligência artificial e de facilidades digitais. Digo e repito: sou um homem do século XX que escorregou no século XXI. Mas resisto. Não fujo à luta. Filho de Joaquim e Maria, que saíram do sertão para dar a mim e aos meus irmãos uma vida decente, eu não me entrego. Minhas raízes são boas e honradas, modéstia à parte, e quem sai aos seus não degenera. Agora estou aqui, de coração aberto, aprontando mais uma, quero dizer, esta coluna Malagueta que vem para vos falar a cada duas semanas, caríssimos internautas, de cultura, comportamento e política, com liberdade, muita irreverência e licença poética.
O combinado com a direção do portal, na pessoa do CEO Igor Fonseca, é que escreverei a meu critério, mas com a responsabilidade autoral e legal que todo jornalista profissional deve ter, sobre temas relacionados a essas três áreas. Aviso deste já que isto aqui não é blog pra espinafrar e manchar reputações, como tantos que há na blogosfera. Tenho ojeriza a isso. Um dia farei uma crônica, outra uma resenha de livro, outra um comentário da cena política, outra uma provocação cultural, outra uma narrativa de ficção ou um poema, e por aí vai. Não tenho fórmula prévia. Navegarei ao sabor dos ventos. Sobram-me gosto e vontade. E cara de pau também.
Zero de timidez, já estou me sentindo em casa. Vim pra ficar, a não ser que você, meu leitor, minha leitora neste infinito universo virtual recheado de opções boas e nem tão boas assim, a não ser que você não aprecie, na Malagueta, a sintaxe heterodoxa, a dicção progressista, a veia iconoclasta e a prosa serelepe. Certamente não sou engraçado como o Luís Fernando Veríssimo, mestre do texto e do humor que já se encantou e certamente está encantando os anjos no andar de cima, mas garanto que sou ligado na tomada, irreverente e meio abusado. O que posso prometer — e mais nadica de nada — é botar sal, tempero e pimenta na minha coluna quinzenal aqui no Rede Metrópole. No mais, como você sabe, pimenta no dos outros é refresco, né? Pois é... Então inclua o meu fora disso, o seu também, e até breve.
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Iran de Souza (Irisvaldo Laurindo de Souza) é jornalista, doutor e pós-doutorando em Letras, na área de Literatura. Já fez de tudo um pouco. Foi vendedor de produtos naturais e livros na juventude. Jornalista profissional desde 1987, trabalhou em rádio, jornal, televisão, assessoria de imprensa, comunicação corporativa, comunicação pública e marketing político. Foi de repórter a diretor de redação, de assessor a secretário de comunicação. Ministrou aulas de redação para o Ensino Médio e oficinas de jornalismo. Escreveu um livro. Está enrolando há anos para escrever outros dois. Pós-graduou-se e tornou-se professor universitário. Já viveu mais de meio século. É metido a contador de histórias. Jamais conseguiu ficar rico.









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