MALAGUETA por Iran de Souza
Projetos para o Brasil
Iran de Souza
Candidato conservador: "A não ser que eu seja roubado nas urnas, como roubaram os votos do capitão em 2022, já estou eleito".Aviso: O texto abaixo, escrito em forma de diálogo, simula uma entrevista feita por um jornalista profissional com um político. Nenhum dos dois é nomeado. O conteúdo é inteiramente ficcional. Inclui termos chulos e violência psicológica.
— Sintetize em uma frase o seu programa de governo e de sua aliança partidária.
— Livrar o país do comunismo pra que a pátria amada Brasil não se transforme em outra Venezuela ou, pior ainda, em outra Cuba.
— Como avalia o atual governo?
— De volta à cena do crime, o ex-condenado se revela o ladrão de sempre. O governo dele é só roubalheira. Taí o INSS, o filho dele milionário, o irmão dele biliardário apesar da cara de coitado, os amigos dele nadando em dinheiro. Taí o Caso Master...
— Mas os desvios no INSS nem começaram no governo atual, são antigos, e o Caso Master está diretamente relacionado à gestão anterior do Banco Central, ao Governo do Distrito Federal e às previdências dos estados e municípios. Confere?
— Não se prenda a detalhes irrelevantes. O cabeça de tudo é ele, o ladrão-mor da República. Ou você não viu o Power Point da GloboNews?
— Vi; e vi também que a GloboNews se desculpou publicamente por ter levado ao ar algo tão malfeito e mal-apurado.
— Papo furado! Foi comprada, isso sim.
— Seguindo adiante, o que pretende fazer na área da educação?
— Deletar as ideias marxistas de Paulo Freire das escolas e universidades brasileiras, aumentar o número de escolas cívico-militares e tornar obrigatório o ensino de religião na rede pública.
— Mas segundo a Constituição o Estado é laico.
— Logo, logo deixará de ser. Questão de tempo. Pois “bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo ao qual escolheu para sua herança”. Salmos 33:12. Amém!
— E no meio ambiente, qual o caminho?
— Se quiser ser player no mundo, o Brasil precisa crescer a qualquer custo. Então a gente vai abrir de novo a porteira, como fez o capitão no mandato dele como presidente, e deixar a boiada passar. Liberaremos o garimpo em terras indígenas e vamos incentivar a retomada da produção madeireira, da criação de gado e a expansão do plantio de soja na Amazônia. Aliás, por que índio precisa de tanta terra? Todo mundo vive em casas e apartamentos pequenos nas cidades, não é mesmo? Por que eles precisam viver em latifúndios demarcados? Os índios, hoje, são os maiores latifundiários do Brasil.
— Discute-se atualmente a reforma do Judiciário. O que propõe nesse sentido?
— Cassar o ditador de toga, aquele que está perseguindo e condenando tantos patriotas, e também o comunista maranhense, o bloqueador de emendas que não deixa o Congresso trabalhar pelo bem do Brasil. Os dois transformaram o Supremo Tribunal Federal em filial do PT. Ambos vão vazar de lá quando tivermos maioria no Senado. E logo teremos. Quanto aos demais ministros, que andem na linha. Os melancias das Forças Armadas não fecharam o STF — bastava um soldado e um cabo, todo mundo sabe — quando os ventos eram favoráveis pra isso, mas a gente pode cassar um por um e botar só gente nossa no lugar. Já temos dois patriotas lá. Faltam só nove.
— O Congresso derrubou os vetos do presidente ao Projeto de Lei da Dosimetria, e abriu caminho para reduzir as penas dos condenados pelo 8 de janeiro. Foi uma vitória pra vocês e uma grande derrota pro governo.
— É verdade. Foi um bom começo. Mas reduzir as penas é pouco. Vamos anistiar todo mundo, a começar pelo capitão. Ninguém pode passar 14, 20, 27 anos preso por causa de um golpe que não existiu.
— Não existiu?
— Não.
— Vamos raciocinar: tentativa de homicídio é crime?
— É.
— Tentativa de assalto é crime?
— É.
— E tentativa de golpe não é crime?
— Se alguém tivesse tentado dar golpe, sim, seria.
— Não tentaram?
— Não, claro que não. O 8 de janeiro não passou de vandalismo contra o patrimônio público. Era um protesto pacífico, cristão, ordeiro e patriota de pessoas que levavam a Bíblia debaixo do braço e a bandeira do Brasil nas costas. Só acabou em quebradeira porque o governo do ex-condenado não providenciou a segurança necessária e por ação de petistas infiltrados que insuflaram a multidão.
— Até onde se sabe, nenhum dos mais de mil e quatrocentos condenados pelo 8 de janeiro é filiado ao PT.
— Um conluio entre o ditador de toga e o ex-condenado livrou a cara deles. Todo mundo sabe disso.
— Eu nunca soube.
— Você deve ser petista.
— Não sou.
— Mas votou no ladrão.
— O voto é secreto.
— Mas não é auditável.
— Como assim?
— Ora, você sabe que o capitão ganhou a eleição de 2022 e a de 2018 ainda no primeiro turno. Todo mundo sabe. Se o voto fosse auditável e impresso, o verdadeiro resultado teria vindo à tona. E teria sido outro. Nós ganhamos a eleição. Não há o que discutir.
— Observadores internacionais já constataram que o Brasil tem um dos sistemas eleitorais mais avançados e seguros do mundo, senão o mais avançado e evoluído de todos. Muito superior, por exemplo, ao dos Estados Unidos.
— Não sabemos de quem você está falando. Com certeza estes observadores foram comprados pelo ladrão e pelos cupinchas dele do TSE e do Supremo.
— Vocês têm prova disso?
— Pra que provar o que todo mundo sabe? O que todo mundo sabe não precisa de prova. Vale por si.
— Mudando de assunto, o aumento da violência nas cidades e no campo preocupa demais os brasileiros. Como resolver esse problema de maneira efetiva?
— Fácil! Basta botar as milícias pra cima das facções criminosas. Traficante treme de medo de miliciano. Então é o que vamos fazer. Inclusive incentivaremos a formação de novas milícias e grupos paramilitares em todos os estados da federação. As milícias são do bem. Nós temos velhas e boas parcerias com elas no Rio de Janeiro.
— É crescente a violência contra a mulher no Brasil. Como estancar isso?
— As mulheres precisam parar de se expor nas ruas e nas redes sociais. Elas se mostram demais. Mostram tudo. E quando fazem isso atraem todo tipo de maluco e todo tipo de violência. Além disso também precisam lembrar que, segundo a lei de Deus, a vontade do homem vem sempre em primeiro lugar. Então a culpa maior, nessa questão do feminicídio, é do feminismo. A verdade verdadeira é que o feminismo meteu na cabeça das mulheres que elas não apenas podem ser iguais, mas até superiores aos homens.
— Que tipo de políticas públicas vocês pretendem adotar em relação às minorias, principalmente negros, homossexuais e transexuais?
— Vamos acabar com a política de cotas nas universidades e nos concursos públicos, como o governo de Santa Catarina já teria feito na universidade estadual de lá se o Supremo tivesse permitido. Com a Lei Áurea, os negros foram reconhecidos como seres humanos e como cidadãos. Têm direitos iguais a quaisquer outros. Então por que tantos privilégios para eles? A competição tem que ser mano a mano, na base do mérito. Quanto a homossexuais, transexuais e travestis — desculpe, você sabe a diferença entre um e outro? Porque eu mesmo não sei —, esses precisam mesmo é de tratamento médico, psicológico e de muita oração. No nosso governo vamos abrir centros de recuperação para eles, em todos os estados da federação. Centros onde terão atendimento e acompanhamento integral para que voltem a ser pessoas normais.
— Eles não são normais?
— Só é normal homem que gosta de mulher e mulher que gosta de homem, como manda a lei de Deus.
— Já leu O banquete de Platão? A paixão recíproca entre Sócrates e Alcibíades não é prova suficiente de que desde que o mundo é mundo os padrões erótico-amorosos não se prendem ao binômio macho/fêmea?
— O professor Olavo diria que isso aí é papo de bicha velha e esclerosada. Nós somos cristãos tementes a Deus. Não lemos porcaria desse tipo. Isso não é filosofia, é lixo filosófico. Pura boiolagem.
— Quais pensadores vocês leem?
— Além do saudoso professor Olavo, muitos, muitos outros. Mas não lembro os nomes de cabeça...
— O que vocês pretendem no que diz respeito à política tributária?
— A primeira coisa é acabar com o déficit fiscal. O governo não pode gastar mais do que arrecada... E o ladrão só faz gastar, gastar, gastar e roubar.
— Minha pergunta foi sobre política tributária, sobre impostos. O senhor está falando de política fiscal: orçamento, receitas, despesas...
— Sim, agora você vai querer me dar aula de economia, seu estúpido? Olha aqui, eu fiz faculdade, viu? Tenho pós-graduação... Não preciso de suas aulinhas de economia coladas do YouTube, seu idiota.
— Idiota, eu?
— Idiota, sim, de pai e mãe.
— O senhor não sabe a diferença entre política fiscal e política tributária, mas o idiota sou eu?
— Você veio aqui só fazer pegadinha, armar pra mim. Ou pensa que não estou percebendo, seu comunista safado?
— O país é democrático e a imprensa é livre. Posso perguntar o que eu quiser. O senhor decide se responde ou não.
— País democrático? Só rindo. Vivemos numa ditadura do Judiciário apoiada por uma imprensa marxista-leninista. Mas vamos lá, termine logo a merda desta entrevista antes que eu me aborreça de vez.
— O senhor vai manter a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais por mês?
— Nós até votamos a favor disso aí no Congresso Nacional. Mas foi só pro ladrão não dizer que era o único pai da criança.
— Não dá pra ampliar um pouco mais a escala de isenção, ou seja, para aprofundar a progressividade tributária, fazendo os ricos pagarem mais e a classe média e os pobres pagarem menos impostos, como nos países nórdicos, por exemplo?
— Progressividade é conversa de progressista-esquerdista-comunista. Nós somos liberais em economia e conservadores na moral e nos costumes.
— E a tributação das empresas, como vai ficar?
— Vamos diminuir as alíquotas. Baixar geral. Só existe Estado mínimo onde há imposto mínimo. Simples assim. O empresariado brasileiro não aguenta mais tanto imposto.
— Não serão taxados nem os ganhos de capital?
— Quem gosta de taxar é o Taxad. Nós vamos destaxar.
— E a política externa, como vai ser?
— Ainda vamos combinar com o Trump. Ele que vai dizer.
— Como o senhor pretende se relacionar com a mídia?
— Vou cassar a concessão da Globolixo. Já passou da hora. A família tradicional brasileira não aguenta mais tanta depravação, tanta viadagem na tevê.
— Essa será a sua primeira medida, caso eleito?
— Não. A primeira medida vai ser mandar te prender, seu babaca. Gravei a tua cara, viu? Espera só pra ver.
— Bem, as pesquisas mostram que a sua eleição de certa não tem nada...
— A não ser que eu seja roubado nas urnas, como roubaram os votos do capitão em 2022, já estou eleito. Ninguém aguenta mais o ladrão. E como você mesmo pôde observar nesta entrevista nós é que temos os melhores projetos para o Brasil.
* Iran de Souza (Irisvaldo Laurindo de Souza) é jornalista, doutor e pós-doutorando em Letras, na área de Literatura. Escreve quinzenalmente no Portal Rede Metrópole.








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