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Cinema & Contexto - Crítico de Cinema e Audiovisial, Rogério Parreira

Honestino Guimarães, Presente!

Novo filme de Aurélio Michiles


Honestino Guimarães, Presente! Imagem do filme


Honestino é o novo filme docudrama (documentário e ficção) do diretor Aurélio Michiles, sobre a vida do líder estudantil, poeta e ex-presidente da união nacional dos estudantes (UNE) desaparecido durante a ditadura militar. Já havia assistido o documentário “Cineasta da Selva” do mesmo diretor amazonense sobre a vida de Silvino Santos (português precursor da sétima arte na Amazônia), interpretado magistralmente por José de Abreu. Ressalto essa obra para dizer que o diretor acerta na linguagem cinematográfica de Honestino, seguindo o mesmo estilo de "docudrama" misturando depoimentos, com sequencias encenadas e imagens de época, construindo uma narrativa poética, muito bem concatenada, onde ficamos absolutamente absortos em uma cachoeira de imagens e sons.

A primeira virtude do filme se encontra na elaboração do roteiro, assinado por Aurélio Michiles e André Finotti, sendo que Aurélio foi amigo de Honestino, companheiro de lutas estudantis e de muitas resenhas sobre literatura e cinema, fato esse que o coloca em posição de intimidade histórica singular, para apontar detalhes importantes na personalidade do protagonista da obra. Conviveu com o destemor, alegria contagiante e amor à vida que marcavam o líder estudantil. A começar pela escolha do ator Bruno Gagliasso, para interpretar Honestino, em cenas ficcionais. Bruno incorpora muito bem o militante político e poeta, que em uma das cenas, veste a camisa do vasco da gama, time do coração de Honestino, que apesar de anos na clandestinidade, não deixou de frequentar o maracanã, para torcer e gritar pelo também conhecido “clube do povo”, por ter sido o primeiro time de futebol profissional a ter negros em seu elenco.

A origem do ideário socialista de Honestino, veio do seu Pai, Benedito Monteiro Guimarães, conhecido como Seu Monteiro, que era dono de um cartório, um restaurante e um pequeno cinema na cidade de Itaberaí, no interior de Goiás. Sonhava que seus filhos estudassem na União Soviética e segundo o depoimento do seu irmão, Norton  Guimarães, trabalhavam juntos no cineminha e eram incumbidos de ir distribuir pães na periferia da cidade.  Ao lado da formação cristã católica da família, a forte consciência social de Honestino (frequentava as missas em Brasília) foi sendo forjada, que mais tarde incomodaria demais os fascistas de plantão na ditadura militar. É importante registrar o amor que Honestino tinha pelas artes e em especial pela literatura, adorava escrever poesias, alguns versos estão presentes no filme e também um belíssimo trecho de uma carta escrita para seu Pai.

Aprovado em primeiro lugar no vestibular da UNB (Universidade de Brasília), para cursar geologia, integrou a Ação Popular, organização política formada por estudantes católicos com orientação esquerdista. Logo se destacou nas lutas estudantis e ajudou organizar os movimentos de protesto contra o regime militar, que pretendia privatizar as universidades públicas e acabar com a gratuidade no ensino superior. Sua presença magnética e envolvente, o tornaram uma liderança nacional, que o levou ser eleito vice-presidente da UNE em 1969, sendo que após a prisão do presidente Jean Marc von der Weid, assumiu interinamente a presidência. E foi eleito presidente da UNE para o período de 1971/1973. Foi preso em 1973 no Rio de Janeiro, pelo Centro de Informações da Marinha (CENIMAR) e desde então desapareceu. Somente em 2013 através da Comissão da Verdade, veio à tona os fatos que já eram esperados, a morte de Honestino foi consequência de torturas atrozes cometidas por militares do CENIMAR.

O documentário segue de forma linear, com depoimentos que ajudam o público a conhecer o Honestino poeta, militante, amante, Pai e um brasileiro que amava profundamente o seu País. Mesmo durante os cinco anos que mergulhou na clandestinidade, continuava jogando futebol nas praias do Rio de Janeiro e frequentando rodas de samba nos morros cariocas. Mesmo sabendo que o vento sombrio da morte sussurrava em seus ouvidos, soprado por um regime que queria a sua cabeça cortada, se recusou de forma convicta a deixar o Brasil, mesmo tendo todas as condições para isso, com passaporte e esquema pronto, segundo relato do seu irmão. Os depoimentos de sua filha Juliana Guimarães e de sua Mãe Maria Rosa Leite Monteiro são emocionantes, destaco um marcante, quando sua Mãe revela que procurou os militares em Brasília, para obter informações do filho desaparecido. Os verdadeiros terroristas  mentiram descaradamente, dizendo que ele estava bem e que a família poderia voltar para passar o natal com ele na prisão, retornaram na véspera da data marcada , alegres, repletos de esperança e tomaram um chá de cadeira, acompanhado de um silêncio pleno de crueldade dos milicos, Honestino provavelmente já tinha sido assassinado antes da primeira conversa de sua Mãe com os militares.

As cenas ficcionais fazem toda a diferença, trazendo vivacidade e um contraste de cores marcantes da estética da juventude do final dos anos 60. Carregado de metáforas, como as cenas do subsolo do “minhocão” da UNB que representam a vida clandestina de Honestino, correndo em um túnel sombrio com os cartazes dos movimentos e palavras de ordem política, representando as idéias que permeavam sua consciência em um ambiente absolutamente escuro e sufocado pelo terror. Em outras cenas, muitos jovens, com trajes que dialogam com a juventude contemporânea, indicam um acerto estético de Michiles, que faz essa conexão temporal com a realidade. Em uma sequência dramática, Honestino na prisão, após ser capturado em uma das invasões da UNB pelos militares (ao total foram 5 invasões) rabisca na parede do cárcere a frase: “O Futuro é Ancestral”, só que vendo uma entrevista do Michiles, ele relatou que essa frase é do Aiton Krenak, grande pensador e educador indígena. Essa frase de grande sabedoria, aplicada a vida e martírio de Honestino, filho do Brasil, tem um significado profundo para os tempos atuais. A história de coragem, convicções inabaláveis de liberdade, juntamente com  a vitalidade da crença em um Brasil justo e solidário, são as imorredouras semeaduras do incansável guerreiro Honestino.

Honestino não pegou em armas, mas tombou e derramou o seu sangue por utilizar apenas as armas de suas convicções, em um Brasil grande, desenvolvido, democrático e igualitário. Que são os horizontes de um futuro em construção, que vai buscar no passado, nas lutas e nos exemplos, as colunas de sustentação para forjar novas consciências que tenham a mesma nobreza de Honestino e a certeza que a festa do mundo vai acontecer.

 A Festa do Mundo

“… Eu luto pela festa do mundo”.

Por Honestino Monteiro Guimarães

– Eu espero a festa do mundo inteiro

a cantar a manhã que chegou

mais bela que as outras manhãs,

porque a noite que a precede é uma noite

mais negra que o comum das noites todas.

Eu espero a festa do mundo

mas também eu construo

anônimo entre todos, mas ligado a todos

porque a festa do mundo vai ter que chegar

é a festa da manhã geral.

Eu construo a festa do mundo

armado das minhas convicções

que são as verdades do mundo,

que são as verdades do homem.

Pois eu construo a festa

cantando e lutando por um mundo

liberto e igual,

pelo mundo que vai chegar

com a manhã mais bela que as

manhãs todas,

com a festa dos homens livres.

E eu luto pela festa do mundo.

Honestino Guimarães (27 de novembro de 1965).


 Acervo histórico: Honestino e sua filha Juliana



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