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Brasil,19/04/2026

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Premiado filme sobre a Guerrilha do Araguaia pode desaparecer sem restauração urgente

Estado e sociedade precisam se mobilizar para resgatar obra histórica - premiada internacionalmente - e filmada no Pará.

Reportagem escrita por: Jornalista Igor Fonseca / FOTOS: Carlos Silva e Renato Chalú
Premiado filme sobre a Guerrilha do Araguaia pode desaparecer sem restauração urgente Vinte anos após o lançamento, premiada obra filmada no Pará corre risco de degradação e busca investimentos para digitalização em 4K e preservação histórica
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Cineasta Ronaldo Duque faz apelo para salvar obra sobre a Guerrilha do Araguaia filmada na Amazônia

Vinte anos após o lançamento, película original de "Araguaya, a Conspiração do Silêncio" sofre risco de degradação com a ação do tempo. Restauração em 4K é a única saída para evitar o desaparecimento da obra e preservar a memória deste filme histórico para o Brasil. 


BRASÍLIA / BELÉM - O cinema brasileiro enfrenta uma corrida contra o tempo para salvar um de seus documentos mais impactantes sobre a resistência à ditadura militar. O cineasta Ronaldo Duque, diretor do filme "Araguaya, a conspiração do silêncio" (2003), utilizou suas redes sociais para fazer um apelo urgente: a obra, filmada na Amazônia, precisa de restauração imediata! Atualmente, o material existe apenas em sua versão original em película de 35 mm e corre o risco severo de se tornar irrecuperável devido à deterioração física do suporte analógico.

O apelo de Ronaldo Duque ocorre em uma data simbólica. Este mês marca os 54 anos do início da repressão brutal do Exército à Guerrilha do Araguaia, iniciada em 12 de abril de 1972. Na ocasião, mais de dez mil soldados foram mobilizados para combater 69 guerrilheiros do PCdoB no sul do Pará, resultando na morte de 54 combatentes. Para o diretor, preservar o filme é manter viva a memória desse conflito que durou mais de dois anos e marcou a história política do país. Segundo o cineasta, o material já não possui a qualidade necessária para exibições públicas dignas, o que motiva a busca por apoio para a masterização em 4K.




A proposta de restauração visa transformar o filme para o formato DCP (Digital Cinema Package) é o formato padrão da indústria para distribuir e projetar filmes em cinemas digitais mundialmente. Ele é um conjunto de arquivos - contendo vídeo, áudio, legendas e metadados criptografados - que garante a máxima qualidade de imagem (2K ou 4K) e som surround, garantindo que a histórica obra possa circular novamente em salas de cinema e plataformas de streaming.

Ronaldo Duque destaca que a digitalização é fundamental para que as novas gerações tenham acesso a este conteúdo, que já foi premiado em festivais internacionais como os de Nova Iorque e Trieste, na Itália, e em Gramado.


ASSISTA OS BATIDORES DO FILME: "ARAGUAYA - A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO" - DIRIGIDO PELO CINEASTA RONALDO DUQUE:


Bastidores de “Araguaya”: filme recria resistência na Amazônia e expõe cicatrizes da ditadura

O filme, dirigido pelo jornalista e cineasta Ronaldo Duque, mergulha no conflito ocorrido na região do Bico do Papagaio entre 1972 e 1974, onde militantes do PCdoB tentaram estabelecer um foco de resistência armada contra a ditadura. Com um orçamento de R$ 4,5 milhões, a produção enfrentou o desafio de filmar na Amazônia sem qualquer apoio das Forças Armadas, que se recusaram a fornecer informações ou equipamentos para a obra.

O Exército brasileiro no auge da ideologia de segurança nacional, um partido de esquerda dissidente, militantes aguerridos, a maioria jovens e inexperientes. Inocentes camponeses e uma região onde a ambição e a miséria disputavam lugar palmo a palmo. Esse é o cenário de ARAGUAYA – A Conspiração do Silêncio, memória, testemunho e vivências do diretor e jornalista Ronaldo Duque.

A semente do projeto foi plantada em 1977, quando Ronaldo Duque trabalhava em Marabá e ouviu de camponeses relatos sobre o "tempo da confusão". Após uma tentativa frustrada de documentário em 1984 - arquivada pelo medo paralisante da população local em falar sobre a repressão - Duque retomou a ideia em 1996 como ficção. Para garantir autenticidade, a equipe acompanhou exumações da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e submeteu os atores, a treinamentos de sobrevivência na selva ministrados pela Polícia Militar do Pará.

As filmagens concentraram-se em Marituba, na antiga Fazenda Pirelli, onde 90 profissionais ergueram uma vila cenográfica completa com 60 casas, igreja e centro comunitário para replicar a comunidade de Caianos. A logística foi um embate à parte: as chuvas amazônicas de 2002 destruíram estradas, obrigando a produção a usar balsas e barcos para transportar equipamentos de Belém. Um dos momentos mais engenhosos foi a recriação de um helicóptero militar UH1H. Sem auxílio do Exército, a produção obteve um aparelho civil quebrado do Governo de Roraima, que foi reformado e içado por guindastes, recebendo acabamento de voo via computação gráfica.



Premiações nacionais e internacionais:

Melhor filme - New York Brazilian Film Festival

Prêmio Especial da Crítica - XX Festival de Cinema Latino Americano - Trieste-Itália


Prêmio Especial do Júri no 32º Festival de Cinema de Gramado.



Conheça mais sobre os personagens e elenco do filme. Muitos atores paraenses participaram da filmagem de "Araguaya":

No elenco, figuras históricas são humanizadas através de atuações intensas. Kaká Amaral interpreta o dirigente Maurício Grabóis, enquanto Danton Mello dá vida ao seu filho, André Grabóis, um dos desaparecidos da Guerilha, aos 27 anos.

O ator Northon Nascimento interpreta o lendário Osvaldão, militante treinado na China que se tornou herói entre os camponeses. No filme Oswaldão contracena em diversas cenas com o ator e jornalista Igor Fonseca que interpreta o menino Jorginho no filme. O garoto - personagem da ficção - acaba se tornando como um verdadeiro filho para o Guerrilheiro Oswaldão (interpretado por Northon Nascimento).


A atriz Françoise Forton, que interpreta a guerrilheira Dora, descreve o filme como um "hino de amor ao Brasil", destacando o sacrifício de uma juventude que acreditava na mudança social.

Elenco Principal e Personagens:

  • Northon Nascimento: Interpreta Osvaldão (Osvaldo Orlando Costa), o lendário estudante de engenharia treinado na China.

  • Françoise Forton: Interpreta Dora, personagem que simboliza a força das mulheres combatentes no conflito.

  • Danton Mello: Interpreta Carlos / André Grabóis, o jovem revolucionário filho de Maurício Grabóis.

  • Cacá Amaral: Interpreta Mário / Maurício Grabóis, dirigente histórico do PCdoB e deputado constituinte.


  • Claudio Jaborandi: Interpreta o Cabo Abdon, representante da face sórdida da repressão militar.

  • Rosanne Mulholland: Interpreta Alice, inspirada na guerrilheira sobrevivente Criméia Alice.

  • Fernando Alves Pinto: Interpreta o Tenente Álvaro.

  • Stephane Brodt: Ator francês que interpreta o Padre Chico, narrador da história e inspirado nos dominicanos expulsos do país.

  • Thierry Tremouroux: Ator belga que interpreta o Padre Roberto.

  • Narciza Leão: Interpreta Lúcia.

  • Rômulo Augusto: Interpreta Flávio.

  • William Ferreira: Interpreta Juca.

  • Adriano Barroso: Interpreta Anselmo.

  • Igor Fonseca: Interpreta Jorginho, "filho" adotivo do Guerrilheiro "Oswaldão"


  • Pablo Peixoto: Interpreta Geraldo, personagem baseado em José Genoíno.

  • Fernanda Maiorano: Interpreta Tininha, Guerrilheira protagonista do filme.

Para Ronaldo Duque, o filme é um grito contra o esquecimento. A narrativa destaca a dívida do Estado brasileiro com as famílias dos 59 desaparecidos políticos cujas ossadas, exumadas durante as pesquisas, permanecem em Brasília sem identificação.






A 'Conspiração do silêncio' mencionada no título do filme se refere não apenas ao sigilo militar, mas à persistência de uma ferida aberta na história nacional. O filme busca, através da sétima arte, abrir os documentos do passado e garantir o direito à memória, reafirmando que a verdade sobre o conflito no Araguaia é um compromisso fundamental para a democracia brasileira", desabafa o jornalista e cineasta brasileiro, Ronaldo Duque.

PRESERVAÇÃO & MEMÓRIA AUDIOVISUAL

Digitalização em 4K surge como blindagem tecnológica para o patrimônio histórico do Araguaia

Processo de restauração de alta complexidade demanda investimentos e mobilização institucional para converter películas físicas em arquivos digitais

A salvaguarda de obras cinematográficas em película, como o filme "Araguaya, a conspiração do silêncio", exige um procedimento técnico minucioso conhecido como restauração e masterização em DCP (Digital Cinema Package). O processo inicia-se com a limpeza física da película de 35 mm e o reparo de danos causados pelo tempo, seguido pelo escaneamento quadro a quadro em resolução 4K. Esta tecnologia transforma o suporte químico — sujeito à decomposição e fungos — em dados digitais de altíssima fidelidade. O objetivo é criar um "negativo digital" que preserva a textura original da imagem e a profundidade do som, permitindo que o filme seja exibido com perfeição em projetores de última geração e plataformas de streaming.



No cenário nacional, o custo para a restauração completa de um longa-metragem pode variar drasticamente dependendo do estado de conservação do material, com orçamentos que frequentemente superam os R$ 200 mil reais. Empresas especializadas como a Cinecolor Digital, em São Paulo, e a própria Cinemateca Brasileira são referências no setor, operando equipamentos de ponta para digitalização. Um exemplo emblemático de sucesso nesse processo foi a restauração do clássico "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha. O projeto, encabeçado por Paloma Rocha e produtores parceiros, resgatou a obra-prima do Cinema Novo para o formato 4K, garantindo que o legado visual da resistência e da mística brasileira não fosse apagado pela degradação física.

No Pará, a estrutura necessária para articular essa preservação encontra-se no Museu da Imagem e do Som (MIS), órgão administrado pelo Governo do Estado do Pará via Secretaria de Cultura (Secult). Sediado no histórico Palacete Faciola, o MIS tem a missão institucional de zelar pela memória audiovisual paraense. Especialistas e a classe artística defendem que o museu, em conjunto com a Cinemateca Paraense, poderia liderar uma mobilização para captar recursos via editais ou parcerias público-privadas. O objetivo é impedir que obras que retratam fatos cruciais ocorridos em solo paraense, como a Guerrilha do Araguaia, desapareçam por falta de suporte técnico e político.







Para o diretor Ronaldo Duque, a restauração não é apenas um capricho técnico, mas uma urgência ética. Sem a intervenção, o material captado em Marituba e premiado internacionalmente corre o risco de virar pó em poucas décadas. A mobilização em torno do filme torna-se, portanto, um teste para a capacidade do estado em proteger seu patrimônio imaterial. Com o avanço das tecnologias de restauração, a sobrevivência da história do Brasil e do Pará depende agora de uma assinatura no papel e de uma visão estratégica que coloque a preservação da memória no centro das políticas culturais do país.


A integridade artística da película depende agora de um esforço coletivo e institucional para que o "silêncio" citado no título não se torne definitivo pelo apagamento físico das imagens.

A preservação de "Araguaya, a conspiração do silêncio" se insere em um movimento maior de resgate da memória no Pará. Para o Jornalista Igor Fonseca - Diretor & CEO da Rede Metrópole, o apoio a projetos de restauração como o de Ronaldo Duque é uma questão de preservação da memória brasileira.

Garantir que um filme de tamanha relevância política e artística seja salvo da degradação é assegurar que o direito à verdade histórica permaneça acessível a todos os brasileiros, reafirmando o papel do cinema como guardião da identidade nacional, afirma o ator e jornalista Igor Fonseca.



O jornalista paraense Igor Fonseca - que também participou ativamente das filmagens de "Araguaya" - apela ao Governo do Pará e ao Museu da Imagem e do Som por socorro técnico. Afinal, sem restauro, o registro visual desta obra histórica corre risco de desaparecer em silêncio.

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