DESTINOS, SABORES & VIVÊNCIAS
Viajar não é colecionar destinos. É colecionar repertório.
Em tempos de roteiros acelerados e listas intermináveis de lugares para conhecer, talvez o verdadeiro luxo seja ter tempo para viver um destino.
Viajar é observar, compreender e ampliar o repertório.Quantos países você conhece? Eu já respondi essa pergunta algumas vezes. E, durante muito tempo, achei que o número fazia alguma diferença. Hoje, depois de muitos aeroportos, cidades e culturas, acho que a pergunta deveria ser outra: Quantos lugares você realmente viveu? Existe uma certa ansiedade em colecionar destinos. Contamos países, cidades, atrações. A maioria das pessoas tende a montar roteiros em que cada dia precisa ser aproveitado ao máximo — e, de preferência, fotografado também.
Mas, viajar me ensinou justamente o contrário: conhecer mais não significa necessariamente viver melhor.
Eu sou jornalista e talvez por isso tenha dificuldade de chegar a um lugar e me contentar apenas com aquilo que está diante dos olhos. Quero entender o que aconteceu ali, como as pessoas vivem, de onde vieram seus sabores, seus hábitos e suas contradições.
No Vietnã, por exemplo, percebi como a história que aprendemos à distância (e um tanto quanto distorcida) é apenas uma parte de um país. Para um parcela significativa do Ocidente, seu nome ainda remete quase imediatamente à guerra. Estar lá é descobrir muito além disso: o cotidiano, a gastronomia, as tradições e uma cultura que não cabe em um capítulo dos livros de História.
Nas Maldivas, aprendi quase o oposto. Sem uma lista interminável de atrações para cumprir, entendi melhor o valor de desacelerar. Às vezes, aproveitar uma viagem não significa preencher todos os minutos. Às vezes, luxo é simplesmente ter tempo.
E a Europa me ensinou que não precisamos conhecer tudo de uma só vez.
Uma das perguntas que mais ouço é: “Qual é a melhor época para conhecer a Europa?”. Minha resposta quase sempre começa com: depende. Porque Europa não é um país, logo, não é uma experiência única.
Há a Europa dos museus, das praias do Mediterrâneo, dos Alpes, dos pequenos vilarejos, da gastronomia, dos mercados de Natal e das grandes capitais. Antes de decidir quando ir, talvez seja mais importante perguntar: o que eu quero viver nessa viagem? Essa resposta muda o destino, a época, o hotel, o ritmo e até aquilo em que vale a pena investir.
E talvez esteja aí uma das principais transformações do turismo contemporâneo. Luxo já não precisa significar apenas hotéis cinco estrelas, restaurantes estrelados ou serviços exclusivos. Luxo é viajar de acordo com quem você é.
Pode ser um grande hotel. Um guia extraordinário. Uma mesa especial. Privacidade. Conforto. Ou simplesmente uma tarde inteira sem nada programado.
Viajar bem não significa necessariamente viajar mais caro. Significa fazer boas escolhas.
E é esse olhar que quero trazer para a coluna Destinos, Sabores & Vivências.
Como jornalista, quero contar as histórias que existem por trás dos lugares. Como profissional do turismo, quero falar também sobre escolhas: onde vale investir, o que realmente merece entrar em um roteiro e como transformar uma viagem em experiência.
Aqui vamos falar de destinos, gastronomia, cultura, hotelaria e tendências. Mas, principalmente, sobre diferentes maneiras de conhecer o mundo, porque as melhores viagens sempre deixam alguma coisa conosco: um sabor, uma história, uma referência, uma memória ou uma nova maneira de enxergar o mundo.
Depois de uma boa viagem, alguma coisa volta diferente. E talvez seja por isso que continuo acreditando que os melhores souvenirs não cabem na mala.
Viajar não é colecionar destinos. É colecionar repertório.
Gabriela Dutra
Jornalista e CEO da The Concierge Travel








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