Projeto 50+50 apresenta resultados em sessão pública em Belém
Devolutiva detalha memórias da colonização na Transamazônica e Cuiabá-Santarém
Sessão pública apresentou resultados de processo de escuta social e pesquisa científica O auditório do Sindicato dos Urbanitários, localizado no bairro do Marco, em Belém, sediou na segunda-feira, 29 de junho, a Devolutiva Pública do Projeto Jornada Sociocultural 50+50 da Transamazônica e BR-163: Narrativas Humanas, Culturais e Ecológicas na Amazônia. O evento, realizado no período da manhã, reuniu um público de mais de duzentas pessoas para a apresentação dos resultados finais de um processo de escuta social e pesquisa científica sobre os impactos históricos da abertura das rodovias federais na região. Estiveram presentes ao eventos, dentre outros convidados, Úrsula Vidal, ex-secretária de Cultura do Pará; Paulo Rocha, ex-senador e atual superidentente da Sudam; a ex-governadora do Pará Ana Júlia Carepa; o atual secretário estadual de Direitos Humanos, Miriquinho Batista.
Viabilizada por emenda parlamentar do deputado federal Airton Faleiro, a iniciativa foi executada por meio de cooperação técnica entre a Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult) e a Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp), contando com o apoio de universidades e organizações da sociedade civil. O circuito mapeou as trajetórias socioambientais nas bacias hidrográficas dos rios Tapajós, Xingu e Tocantins-Araguaia, gerando um acervo público composto por três livros, documentários de curta e longa-metragem, além de uma plataforma digital com mais de 100 entrevistas gravadas.
A colonização do interior paraense e as condições de infraestrutura foram abordadas a partir de depoimentos de pioneiros e pesquisadores. Neli Ganzer, liderança comunitária que migrou para a rodovia Transamazônica em 1972, aos 18 anos de idade, relatou as condições de transporte e moradia enfrentadas pelos colonos na década de 1970. Segundo a moradora, que se deslocou com os pais em uma viagem aérea organizada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) enquanto a mudança rodoviária levou 26 dias por automóvel, o grupo enfrentou a ausência de infraestrutura básica prometida pelas autoridades governamentais da época.
Neli Ganzer afirmou que o processo inicial de fixação na terra exigiu o acampamento direto na mata, seguido por um período de forte vigilância e repressão policial sobre as primeiras tentativas de organização comunitária da população que se encontrava desassistida no território. "Foi uma migração muito grande e muito difícil. Acampamos no mato. Não tínhamos nenhuma estrutura no local. Fomos abandonados pelas autoridades que havam feito tantas promessas para nós. Foi um tempo muito difícil", recordou.
O panorama científico e metodológico da pesquisa foi detalhado pelo antropólogo Plínio Ramos, coordenador técnico do projeto pela Universidade Federal do Pará (UFPA), instituição que consolidou o apoio ao projeto no ano de 2022. Ramos explicou que as atividades de mobilização e inclusão social desenvolvidas ao longo de quatro anos de vigência do projeto (2022-2026) basearam-se em investigações de campo voltadas a compreender os mecanismos de ocupação territorial.
De acordo com o coordenador, os dados coletados contrapõem-se à retórica oficial do período militar de que a Amazônia constituía um espaço demográfico vazio, evidenciando que a implantação dos projetos governamentais gerou impactos severos e duradouros sobre os povos originários. O pesquisador caracterizou o modelo histórico adotado como um desenvolvimento de caráter predatório e apontou que o resgate da memória serve como subsídio para planejar as demandas sociais regionais para as próximas décadas. “O Projeto 50 + 50 recupera essa memória histórica. Recupera as lutas das populações tradicionais. E aponta paraa necessidade de pensar esse processo para o futuro. Ou seja, para mais 50 anos e assim por diante”, declarou.
Airton Faleiro: deputado federal apresentará emenda ainda este ano para dar continuidade ao projeto
Ao fazer seu pronunciamento, o deputado federal Airton Faleiro (PT-PA) destacou a importância da articulação entre o conhecimento universitário e a atuação dos movimentos sociais para a consolidação do diagnóstico histórico regional. O parlamentar citou o abandono dos agricultores e colonos assentados ao longo dos eixos viários da Transamazônica e da rodovia Cuiabá-Santarém durante os anos de 1972 e 1973, mencionando a percepção de isolamento e as dificuldades extremas relatadas pelos moradores da época.
“Os militares abandonaram os colonos na Transamazônica e Cuiabá-Santarém. Na Transamazônica, em 1972-73, os colonos diziam que o inferno ficava a apenas dois quilômetros e meio. A primeira mentira que os militares contaram foi a de que aquela região era uma terra sem homens. Havia indígenas lá. E eles foram profundamente impactados pela chegada dos colonos e dos projetos instalados na região para exportar matérias-primas”, observou o parlmentar.
Faleiro apontou que o cenário atual demonstra uma retomada de aportes financeiros públicos em setores como ensino superior, pavimentação asfáltica, saneamento e redes de energia elétrica, associando as melhorias às políticas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltadas à Amazônia. Ao final, o deputado confirmou para o mês de outubro deste ano a apresentação de uma nova emenda orçamentária destinada a garantir a continuidade das pesquisas e das ações de salvaguarda do acervo sociocultural mapeado.
Comenda entregue a instituições e personalidades com histórico de lutas em defesa da Amazônia
Homenageados recebem Comenda Avelino Ganzer
Ao final da sessão pública, a comenda Avelino Ganzer foi entregue a várias personalidades e organizações que trabalham em defesa da Amazônia e que também colaboraram direta e indiretamente no projeto.
Entre os homenageados, Beto Paixão, Úrsula Vidal, Inocêncio Gasparini, Movimento Camponês Popular (MCP), Terezinha Ganzer, Ermínio Ganzer (in memoriam), João Batista de Melo Bastos, Ana Júlia Carepa, Raimunda Monteiro, Atanagildo de Deus Matos, Pedro Ganzer (in memoriam), Nonato Guimarães, Izilda Terezinha Ganzer, Carmen Helena Ferreira Foro, Regiane Nascimento da Silva, Maria das Graças Ferreira Lima, Gráfica Suyá, Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará (Fetagri), Graça Costa, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Carlito Aragão, Edmilson Rodrigues, Egydio Sales Filho (in memoriam), Paulo Rocha, Manoel Matheus Tourinho, Miguel Chikaoka Humberto Cunha (Filho), Irmã Fátima de Lima, Miriquinho Batista, Paulo Fontelles (in memoriam), Gutemberg Armando Diniz Guerra, Armando Zurita Leão, Neli Ganzer, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, João Carlos Batista (in memoriam), Carlos Bordalo, Universidade Federal do Pará (UFPA), Milton Cordeiro, Central Única dos Trabalhadores (CUT-PA), Moisés Santos (in memoriam), Instito Amazônico de Agricultura Familiar (INEAF/UFPA), Comissão Patoral da Terra (CPT Regional Norte II), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Emanuel Pinheiro Chaves, Ivanise dos Santos Carvalho, Ivana Azevedo Nobre (in memoriam), Antonio Anselmo Bentes de Oliveira, Benedito Alves Bandeira (in memoriam), Bruno Chagas, Zélia Amador de Deus, Maria Eunice Leal, Flávio Bezerra Ramos, Movimento de Mulheres do Nordeste Paraense, Edna Castro, Jean Hebette (in memoriam), Ubiratan Diniz, Francisco Costa, Maria do Carmo Martins, Cássio Alves Pereira, Malungu, Elias Santiago, José Roberto (Beto) Faro, Moacir Luis Scalabrin, Pedro Medina e Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase).











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