Superdotação na escola: o que muda, de fato, com a nova política nacional?
Nova legislação amplia os direitos de estudantes com altas habilidades, mas especialistas alertam que o maior desafio será transformar o reconhecimento previsto na lei em mudanças reais dentro das escolas.
Dr. Gustavo Gattino é doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca Quem vê Davi Milhomem Giordani, de apenas 7 anos, falando sobre medicina para milhões de pessoas nas redes sociais, participando de eventos ou discursando no Senado Federal dificilmente imagina o caminho percorrido até aqui.
Hoje, ele já cursa o 3º ano do Ensino Fundamental.
A aceleração escolar aconteceu após um processo de avaliação e acompanhamento realizado por profissionais especializados, em diálogo com a família e a escola, respeitando suas necessidades de aprendizagem e desenvolvimento.
Mais do que explicar a facilidade para aprender, o diagnóstico de superdotação profunda, revelou um desafio ainda pouco conhecido: crianças com altas habilidades também precisam ser identificadas, compreendidas e estimuladas. Quando isso não acontece, os impactos podem ultrapassar os limites da sala de aula e afetar o desenvolvimento emocional, o sentimento de pertencimento e a relação com a escola.
"Nós nunca saímos procurando um diagnóstico. Foi esse caminho que nos encontrou e nos apresentou a uma realidade que, infelizmente, ainda permanece invisível para muitas famílias brasileiras”, afirma José Osvaldo Giordani Júnior, pai de Davi.

A experiência da família ajuda a explicar por que pesquisadores e educadores receberam com expectativa a criação da Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação.
Embora estudos internacionais indiquem que entre 3% e 5% das crianças e adolescentes em idade escolar apresentam altas habilidades ou superdotação, o Brasil ainda identifica apenas uma pequena parcela desses estudantes.
O Censo Escolar 2024 registrou pouco mais de 44 mil matrículas de alunos identificados com altas habilidades ou superdotação na educação básica. Se a estimativa internacional fosse aplicada ao país, esse número poderia ultrapassar um milhão de estudantes, evidenciando o tamanho do desafio.
Para o pesquisador Dr. Gustavo Gattino, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela UFRGS, professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, e também uma pessoa com altas habilidades/superdotação, o principal mérito da nova política é ampliar a forma como o país compreende a superdotação.
"Durante muito tempo, a discussão ficou restrita ao potencial intelectual. Hoje sabemos que essas crianças também têm necessidades emocionais, sociais e educacionais específicas. Quando elas passam despercebidas, não deixamos de desenvolver apenas talentos. Podemos comprometer a autoestima, pertencimento e saúde mental."
Muito além das boas notas
Na primeira escola em que estudou, a principal dificuldade enfrentada por Davi nunca foi aprender.
O desafio era encontrar propostas compatíveis com a forma como aprendia. Como já dominava boa parte dos conteúdos apresentados em sala de aula, passou a conviver com o tédio e a falta de estímulos intelectuais.
"O Davi já chegava sabendo grande parte do conteúdo que seria apresentado. Isso fazia com que ele permanecesse durante muito tempo sem encontrar desafios intelectuais. E o resultado era o tédio”, explica o pai que diz, ainda, que com o tempo, o problema deixou de ser apenas pedagógico.
"Com o tempo vieram o desinteresse, a dificuldade para querer ir à escola e uma sensação muito clara de que aquele ambiente já não conversava com a forma como ele aprendia."
Para Gattino, esse tipo de situação ajuda a desmontar um dos maiores mitos sobre a superdotação.
"Existe a ideia de que quem aprende rápido não precisa de apoio. Na realidade, essas crianças precisam ser desafiadas intelectualmente, mas também acolhidas emocionalmente. Inteligência elevada não elimina vulnerabilidades."
Segundo ele, compreender isso é fundamental para evitar que dificuldades emocionais apareçam justamente em crianças que costumam ser vistas como aquelas que "não terão problemas".

A infância influencia toda a vida
Gattino explica que a superdotação não é uma característica restrita à infância nem desaparece quando termina a escola.
Ela acompanha o indivíduo durante toda a vida e influencia a forma como aprende, sente, estabelece vínculos e percebe o mundo.
"Quanto mais cedo a criança compreende quem ela é, maiores são as chances de desenvolver seu potencial sem precisar esconder suas diferenças para ser aceita. A identificação precoce favorece não apenas a aprendizagem, mas também a autoestima, pertencimento e qualidade de vida."
É justamente por isso que ele considera a nova política um avanço importante.
Mais do que reconhecer talentos, ela amplia a compreensão de que estudantes com altas habilidades também precisam de estratégias pedagógicas específicas, acompanhamento e ambientes capazes de estimular seu desenvolvimento de forma saudável.
Uma conquista que precisa chegar às escolas
Na avaliação da família, a nova política representa uma conquista histórica, mas o texto da lei, sozinho, não será suficiente para transformar essa realidade.
"Mas uma lei, sozinha, não muda vidas. Ela precisa sair do papel”, ressalta José.
O pai lembra que os impactos recaem sobre toda a família.
"Existem famílias que deixam de trabalhar para cuidar dos filhos. Existem crianças que desenvolvem ansiedade, desmotivação escolar e um profundo sentimento de não pertencimento quando não encontram um ambiente que compreenda suas necessidades."
Além dos impactos emocionais, a realidade costuma exigir uma profunda reorganização da rotina familiar. Consultas, avaliações especializadas, acompanhamentos terapêuticos, deslocamentos e investimentos financeiros passam a fazer parte da vida de muitas famílias que buscam compreender e atender às necessidades dos filhos.
Para Gustavo, esse talvez seja o maior desafio daqui para frente.
"O sucesso da política será medido pela capacidade de transformar conhecimento científico em práticas educacionais. Isso passa pela formação de professores, pela identificação precoce e pela construção de estratégias que respeitem a individualidade de cada estudante."
Mais importante do que formar um médico
Apesar da facilidade para falar sobre medicina e do sonho de se tornar cardiologista, os pais fazem questão de preservar aquilo que consideram essencial: a infância.
"Nosso compromisso nunca foi formar um médico. Nosso compromisso é ajudar a formar um cidadão."
Davi continua brincando, andando de bicicleta, montando LEGO, viajando com a família, indo à pracinha e descobrindo novos interesses. Para os pais, desenvolver o talento nunca significou abrir mão da infância.
É justamente esse o futuro que eles esperam ver para milhares de outras crianças.
"O maior sonho que temos é que, no futuro, o Davi deixe de ser notícia por ser uma exceção. Que ele passe a ser apenas mais uma entre milhares de crianças que foram identificadas no momento certo, acolhidas pela escola, apoiadas pelas políticas públicas e respeitadas em sua individualidade."
Para Gattino, esse também deveria ser o principal legado da nova política.
"Uma sociedade que reconhece seus talentos desde a infância não forma apenas estudantes mais preparados. Forma pessoas que compreendem suas características, desenvolvem relações mais saudáveis e encontram espaço para contribuir com aquilo que têm de melhor."












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