Fala, comportamento, autonomia ou aprendizagem: por que o desenvolvimento infantil precisa de um olhar multidisciplinar
Especialistas explicam como diferentes áreas do desenvolvimento estão conectadas e por que a integração entre profissionais pode tornar as intervenções mais assertivas
Quando uma criança apresenta dificuldade para falar, brincar, se concentrar, interagir ou realizar atividades do cotidiano, é comum que os pais procurem um profissional diretamente relacionado àquela queixa. Mas o desenvolvimento infantil não acontece em áreas isoladas. Linguagem, cognição, comportamento, coordenação motora, aspectos sensoriais, autonomia e habilidades socioemocionais estão conectados e podem influenciar uns aos outros.
Por isso, quando existe uma dificuldade identificada, o trabalho multidisciplinar pode ajudar a compreender a criança de forma mais ampla e direcionar melhor as estratégias de intervenção.
“Quando olhamos apenas para uma queixa, podemos perder informações importantes sobre o funcionamento global da criança. Uma dificuldade pode estar relacionada a questões motoras, sensoriais, de atenção, comunicação ou regulação. O trabalho conjunto permite cruzar essas informações e entender melhor o que ela precisa”, explica a terapeuta ocupacional Catiuscia Homem.
Falar não é apenas pronunciar palavras
Para a fonoaudióloga Paula Anderle, uma avaliação da comunicação precisa considerar muito mais do que a quantidade de palavras que a criança fala.
“Precisamos observar se ela compreende o que é dito, como se expressa, utiliza gestos, inicia uma comunicação, responde ao outro e participa das interações. A linguagem acontece dentro de um contexto e está relacionada ao desenvolvimento global”, afirma.
Segundo Paula, a integração entre profissionais também ajuda a levar as habilidades trabalhadas na terapia para outros ambientes.
“Se estamos trabalhando comunicação, por exemplo, é importante que essa habilidade apareça durante as brincadeiras, em casa e na escola. Quando os profissionais conversam entre si, conseguimos estabelecer objetivos que façam sentido para a rotina da criança”, diz.
Comportamento também precisa ser compreendido
A psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan destaca que comportamentos considerados inadequados podem ter diferentes origens.
“Uma criança que não consegue permanecer em uma atividade pode estar apresentando dificuldades de atenção, funções executivas, compreensão da tarefa ou regulação emocional. Antes de rotular o comportamento, precisamos entender o que está por trás dele”, explica.
A avaliação neuropsicológica, segundo Thaís, pode contribuir para identificar pontos fortes e dificuldades em diferentes áreas.
“Não devemos olhar apenas para o que a criança não consegue fazer. É importante entender como ela aprende, quais são seus pontos fortes e quais estratégias funcionam melhor. Essas informações ajudam a construir intervenções mais individualizadas”, afirma.
Multidisciplinaridade não significa excesso de terapias
As especialistas ressaltam que o trabalho multidisciplinar não significa colocar toda criança em várias terapias. A indicação deve considerar as necessidades individuais e ter objetivos claros.
“Mais importante do que a quantidade de profissionais é a comunicação entre eles. Uma equipe multidisciplinar não é simplesmente reunir várias terapias, mas compartilhar informações, estabelecer objetivos em comum e trabalhar de forma integrada”, afirma Catiuscia.
A família também tem papel fundamental nesse processo.
“Os profissionais acompanham a criança por determinados períodos, mas a família está presente no cotidiano. Por isso, os pais precisam participar e receber orientações para que as estratégias possam ser utilizadas em situações reais”, explica Paula.
Para Thaís, o acompanhamento deve considerar os diferentes ambientes em que a criança está inserida.
“Cada profissional tem uma lente diferente, mas nenhuma lente sozinha mostra a criança inteira. Quando esses olhares se complementam, conseguimos compreender não apenas as dificuldades, mas também as potencialidades e construir estratégias mais adequadas para favorecer o desenvolvimento”, conclui.











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