Pele também afeta a saúde mental: quando cuidar da aparência deixa de ser vaidade e passa a ser bem-estar
No Setembro Amarelo, especialista chama atenção para a relação entre pele, autoestima e saúde emocional; OMS reconheceu doenças de pele como prioridade global e prepara plano que inclui saúde mental e combate ao estigma
Pexels: https://kaboompics.com Mais de 1 bilhão de pessoas vivem com alguma condição de saúde mental no mundo, segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2025. O impacto também aparece em um dos desfechos mais graves do sofrimento psíquico: mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos e, entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio está entre as principais causas de morte no mundo.
Os números ajudam a dimensionar um problema que não começa apenas quando alguém chega a uma situação extrema. Saúde mental também se constrói no cotidiano, na maneira como lidamos com as emoções, com a própria imagem, com as relações e com os espaços de cuidado que conseguimos estabelecer ao longo da vida.
Neste Setembro Amarelo, um aspecto dessa discussão começa a ganhar mais atenção: a relação entre a saúde da pele e o bem-estar emocional.
Em 2025, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou uma resolução que reconheceu as doenças de pele como uma prioridade global de saúde pública.
No documento, a OMS chama atenção não apenas para os efeitos físicos dessas condições, mas também para suas consequências sociais e emocionais, incluindo estigmatização e discriminação e a associação com problemas de saúde mental, particularmente depressão e ansiedade.
A discussão avançou em 2026.
A OMS está elaborando o Plano de Ação Global sobre Doenças de Pele 2026–2035, que prevê entre suas áreas estratégicas justamente equidade, saúde mental e redução do estigma.
Para a médica Telma Giordani, especialista em saúde da pele e medicina estética, esse reconhecimento ajuda a ampliar uma conversa que durante muito tempo ficou concentrada apenas na dimensão estética.
“A pele é aquilo que apresentamos ao mundo. Quando existe uma alteração muito visível, ela pode interferir na maneira como a pessoa se enxerga e também na forma como acredita que será percebida pelos outros. Não podemos tratar esse impacto como simples vaidade. Para algumas pessoas, aquilo realmente interfere na autoestima, na segurança e até na vida social”, explica.
Quando a pele mexe com a autoestima
Acne, manchas, cicatrizes e outras alterações visíveis podem ultrapassar o desconforto físico. Dependendo da intensidade, da fase da vida e da maneira como cada pessoa vivencia aquela condição, elas podem afetar a autoimagem e gerar constrangimento, insegurança ou vontade de evitar determinadas situações sociais.
A própria resolução da OMS destaca que as consequências econômicas, sociais e emocionais das doenças de pele podem provocar estigmatização e discriminação e contribuir para problemas de saúde mental.
Telma ressalta, porém, que essa relação precisa ser tratada com cuidado.
“Não significa que toda pessoa que tenha acne, manchas ou qualquer outra condição de pele terá um problema emocional. Cada indivíduo responde de uma maneira. Mas também não devemos diminuir o sofrimento de alguém dizendo que é ‘só uma questão estética’. Se aquilo está afetando a qualidade de vida daquela pessoa, merece atenção”, afirma.
Esse olhar se torna especialmente importante em uma época em que a própria imagem está permanentemente exposta e comparada nas redes sociais.
O outro lado: quando autocuidado vira autocobrança
Se, por um lado, cuidar da pele pode contribuir para autoestima e bem-estar, por outro, a busca permanente por uma aparência considerada perfeita pode produzir o efeito contrário.
Filtros, procedimentos, tendências de skincare e imagens altamente editadas ajudam a construir referências difíceis — e muitas vezes impossíveis — de serem alcançadas na vida real.
Poros, linhas de expressão, manchas e mudanças provocadas pelo envelhecimento fazem parte de uma pele real. O problema começa quando características naturais passam a ser interpretadas permanentemente como defeitos que precisam ser corrigidos.
“Autocuidado não deveria nascer da sensação de que existe alguma coisa errada com você o tempo inteiro. Cuidar da pele pode ser um gesto de carinho consigo mesma, mas isso é muito diferente de acordar todos os dias procurando uma nova imperfeição para corrigir”, diz Telma.
Para a médica, essa mudança de perspectiva também passa pela maneira como o skincare vem sendo apresentado nas redes sociais.
“Nós criamos uma ideia de que cuidar da pele exige uma bancada cheia de produtos, uma rotina enorme e um investimento alto. Não precisa ser assim. Uma rotina simples, segura e possível para aquela pessoa pode ser muito mais saudável do que tentar acompanhar tudo o que aparece na internet”, explica.
Autocuidado não precisa ser caro
Essa é também uma das bandeiras defendidas pela médica em seu trabalho de educação em saúde nas redes sociais, onde reúne mais de 1 milhão de seguidores.
Telma procura mostrar que informação e cuidados básicos com a pele podem ser acessíveis a diferentes realidades financeiras. Em vez de associar autocuidado ao consumo excessivo, ela defende escolhas conscientes, produtos seguros e rotinas que possam realmente ser mantidas no dia a dia.
“Democratizar o cuidado também significa dizer para uma pessoa que ela não precisa comprar o produto mais caro para cuidar bem da própria pele. Saúde não deveria ser uma competição de quem tem a rotina mais sofisticada. O cuidado precisa caber na vida e no bolso daquela pessoa”, afirma.
Isso significa também compreender que skincare é apenas uma parte do autocuidado. Proteção solar, higiene e hidratação adequadas podem fazer parte dessa rotina, assim como sono, alimentação, atividade física, momentos de descanso, vínculos sociais e atenção à saúde emocional.
“Às vezes, autocuidado é passar um creme. Em outros dias, pode ser dormir mais cedo, caminhar, desligar o celular, conversar com alguém ou simplesmente respeitar o próprio cansaço. Precisamos ampliar essa ideia de cuidado para que ela não seja reduzida à aparência”, destaca.
Cuidar sem buscar perfeição
Para Telma, o Setembro Amarelo também pode ser uma oportunidade para questionar uma cultura que frequentemente transforma cuidado em cobrança.
Envelhecer, ter linhas de expressão, apresentar mudanças na textura da pele ou conviver com determinadas características não significa falta de cuidado.
“Eu acredito muito em uma frase: autocuidado não é buscar uma pele perfeita. É aprender a cuidar da pele que você tem. Quando entendemos isso, saímos da lógica da comparação e entramos em uma relação muito mais saudável com a nossa imagem”, afirma.
E existe um limite importante. Quando a insatisfação com a própria aparência começa a provocar sofrimento intenso, isolamento, prejuízo à rotina ou ocupa uma parcela excessiva dos pensamentos, a orientação é buscar ajuda de um profissional de saúde mental.
“Nenhum produto ou procedimento deve carregar a responsabilidade de resolver um sofrimento que vai muito além da pele. Medicina estética e cuidados com a pele têm seu lugar, mas saúde precisa ser enxergada de maneira integral. Saber reconhecer quando é necessário procurar outro profissional também é cuidado”, conclui Telma.











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