Muito além da roupa usada: o que atrai os consumidores aos brechós
Peças vintage, exclusividade, custo-benefício e consumo consciente ajudam a explicar o interesse pelo mercado de segunda mão em Belém
Acervo pessoal Bora Garimpar Belém Encontrar peças vintage, roupas de coleções antigas e itens que dificilmente seriam encontrados em lojas convencionais é uma das experiências que atraem consumidores aos brechós. Além da possibilidade de adquirir produtos diferenciados, o mercado de segunda mão também reúne fatores como economia, qualidade, estilo e sustentabilidade.
Para a jornalista e consumidora de brechós Natália Bemmuyal, a exclusividade é um dos principais atrativos. Segundo ela, é possível encontrar roupas, bolsas, sapatos e acessórios que já saíram de linha ou que apresentam características diferentes das peças disponíveis atualmente no comércio tradicional.
“O principal é a diferença, a exclusividade para quem gosta de moda e de vestir coisas diferentes”, explica.
O custo-benefício também aparece como um fator importante. Natália observa que muitas peças antigas possuem materiais de qualidade, como algodão e linho, que podem apresentar preços elevados quando comercializadas como novas. Nos brechós, entretanto, é possível encontrar esses produtos por valores mais acessíveis.
“Você consegue comprar, por um custo-benefício muito melhor, uma peça com material excelente por um preço mais em conta”, afirma.
A mudança na percepção sobre as roupas usadas também contribuiu para ampliar o interesse pelos brechós. De acordo com Natália, a procura por bolsas vintage e a popularização de estilos como o old money fizeram com que mais pessoas passassem a conhecer esse universo. Para ela, muitos consumidores começam procurando bolsas ou sapatos, mas acabam descobrindo que os brechós oferecem uma variedade maior de peças e estilos.
Apesar disso, ainda existe o preconceito de que brechós comercializam apenas roupas velhas. Natália ressalta que a curadoria faz diferença na experiência de compra e na qualidade dos produtos encontrados.
“Com uma boa curadoria, é maravilhoso. É um caminho sem volta, chega a ser viciante”, comenta.
Experiência de garimpo
Mais do que um espaço de compra e venda, os brechós também passaram a oferecer experiências relacionadas à moda, à cultura e à convivência. É o que explica Ana Gibson, advogada, especialista em sustentabilidade, vice-presidente da Comissão de Direito da Moda e criadora do movimento Bora Garimpar Belém, que posteriormente também se tornou sua loja.
Segundo Ana, tanto a loja quanto os encontros promovidos pelo movimento buscam criar um ambiente acolhedor, com moda, música, gastronomia e interação entre os participantes. Para ela, o garimpo envolve não apenas encontrar uma peça, mas também descobrir estilos, conhecer pessoas e identificar roupas que tenham relação com a personalidade de quem compra.
“O brechó é um lugar para viver experiências, encontrar pessoas, descobrir estilos e aproveitar. É mais do que comprar: é descobrir, trocar, se divertir e fazer parte de uma comunidade”, destaca.
A especialista também percebe uma transformação na maneira como o público enxerga as roupas usadas. Antes associadas à ideia de peças de segunda categoria, elas passaram a ser compreendidas como produtos de curadoria, identidade e descoberta.
“Vestir segunda mão pode ser uma forma de expressar identidade, e não apenas uma alternativa econômica”, afirma.
Para Ana, o interesse pelos brechós é resultado da combinação entre consumo consciente, busca por autenticidade e desejo de fugir da produção massificada. O consumidor procura peças que tenham significado, que apresentem uma modelagem específica, uma marca ou uma característica difícil de encontrar em lojas convencionais.
Embora o preço continue sendo relevante, ele deixou de ser o único motivo para a compra. A exclusividade, o estilo e a possibilidade de encontrar uma peça especial também passaram a ter grande importância.
Moda e sustentabilidade
A sustentabilidade é outro aspecto presente no consumo de roupas usadas. Ao comprar em um brechó, o consumidor prolonga a vida útil de uma peça que já existe, evitando que ela seja descartada e reduzindo a necessidade de produzir um novo item.
Ana explica que o consumo consciente não se limita a comprar de segunda mão. Ele também envolve escolher melhor, adquirir peças que realmente façam sentido, cuidar das roupas e compreender que elas podem ter uma vida útil mais longa.
“O brechó torna a sustentabilidade algo prático. Antes de comprar uma peça nova, é possível escolher manter uma roupa já existente circulando e dar um novo significado a ela”, explica.
Na região Norte, essa relação entre moda, cultura, território e sustentabilidade também pode ganhar novos sentidos. Para Ana, consumir de forma consciente é repensar a relação com o vestir e compreender que a moda pode estar associada não apenas às tendências, mas também à responsabilidade ambiental e à valorização da história de cada peça.
Para quem quiser conhecer:
Bora Garimpar Belém - Avenida Governador Magalhães Barata, nº 62, bairro São Brás, Belém — PA, ao lado do McDonald’s. Localizado no Vila Container. Funcionamento: de segunda a domingo, das 16h às 22h.











COMENTÁRIOS