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Vestir a Amazônia: quando a moda se transforma em expressão de identidade

Dina Carmona fala sobre valorização da produção paraense, ancestralidade e o uso da moda como ferramenta para comunicar a identidade amazônica


Vestir a Amazônia: quando a moda se transforma em expressão de identidade Dina Carmona com um look feito com caroços de açaí/ Foto: Instagram
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A moda pode ir além das tendências e da estética. Para a criadora de conteúdo Dina Carmona, vestir também é uma forma de comunicar identidade, valorizar quem produz na região e apresentar ao público diferentes histórias ligadas à Amazônia. Há anos atuando com internet e moda, ela passou a incorporar cada vez mais marcas paraenses, trabalhos artesanais e materiais amazônicos à própria imagem. 

A relação com a moda começou em 2010. Na época, Dina conta que percebia uma forte valorização de referências vindas de outras regiões do país e do exterior. Foi a partir desse questionamento que começou a buscar uma maneira de falar sobre moda a partir do próprio território. 

“E eu comecei a me perguntar: por que eu não posso falar de moda a partir do lugar onde eu vivo?” 

Ao utilizar marcas locais, trabalhos de artesãos e materiais da Amazônia, Dina percebeu que suas escolhas também poderiam apresentar ao público técnicas, histórias e profissionais que nem sempre ganham visibilidade.

 “Eu podia vestir uma peça e, ao mesmo tempo, apresentar uma marca, uma técnica, um material e uma história que muita gente nunca tinha visto”, afirma. 

Vestir a Amazônia 

Para Dina, valorizar a identidade amazônica por meio da moda não significa simplesmente utilizar símbolos regionais em uma produção. Antes de incorporar determinado elemento, ela considera importante conhecer sua origem, quem o produziu e a história existente por trás dele. 

“Eu não quero pegar um elemento amazônico simplesmente porque ficou bonito numa foto ou porque virou tendência. Também não quero construir uma imagem caricata da Amazônia”, explica. 

Do açaí ao miriti 

Materiais presentes no cotidiano amazônico também podem ganhar novas interpretações quando chegam à moda. Dina já utilizou elementos como miriti, sementes, cuia, fibras e rede de pesca em suas produções. 

Para ela, transformar esses materiais em roupas, acessórios ou peças de design permite que o público passe a enxergá-los de outra maneira.

“A pessoa olha uma semente de açaí e pensa numa coisa. Aí alguém transforma aquilo em roupa, acessório ou design e, de repente, ela começa a enxergar aquele material de outra maneira.” 

A proposta também está relacionada à possibilidade de levar referências amazônicas para diferentes lugares. “Eu posso estar numa reunião, num evento ou em qualquer lugar do mundo e ter alguma coisa no meu look que fale sobre de onde eu venho”, afirma. 


Quando a Amazônia vira tendência 

O aumento do interesse pela estética amazônica é visto por Dina como uma oportunidade de ampliar a visibilidade da produção regional. Para ela, porém, essa atenção não deve ficar restrita à reprodução de estampas, cores ou materiais. 

“O que eu espero é que esse interesse não pare na estética”, destaca.

Segundo Dina, a valorização precisa alcançar também marcas, estilistas, artesãos, fotógrafos, criadores e comunidades que mantêm conhecimentos relacionados aos materiais e às tradições amazônicas. 

“Eu quero ver esse interesse gerando oportunidade, renda e reconhecimento para quem é daqui”, afirma. 

Ela também aponta a necessidade de ampliar o acesso da moda paraense a outros mercados. Entre os desafios estão a busca por maior visibilidade, investimento, formação, conexões e oportunidades comerciais. 

Moda e sustentabilidade 

A sustentabilidade também faz parte das escolhas de Dina, mas, para ela, o conceito precisa ser acessível e possível dentro da realidade de cada consumidor. 

“Pra mim, sustentabilidade também passa por consumir melhor, repetir roupa, cuidar das peças, conhecer quem produz e, quando for possível, investir em marcas que tenham processos mais conscientes”, explica. 


A criadora também chama atenção para conhecimentos relacionados aos materiais, ao reaproveitamento e às técnicas artesanais que já existem na Amazônia há gerações. 

“São saberes que existem aqui há muito tempo.” 

O que torna a moda paraense única? 

Para Dina, o principal diferencial da produção paraense está na experiência de quem vive na região. O rio, a cultura, as festas, a gastronomia, os materiais e as histórias locais ajudam a formar o repertório de quem cria. 

“Uma pessoa pode comprar uma semente, copiar uma cor ou reproduzir uma estampa. Mas ela não consegue copiar a vivência”, afirma.

É essa experiência que, para ela, dá autenticidade à moda produzida no Pará. 

“A gente não precisa apagar a nossa origem para construir uma imagem contemporânea, sofisticada ou desejável. A nossa origem pode ser justamente o nosso maior diferencial.” 

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