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Mãe de duas meninas autistas transforma desafios da inclusão em livro infantil

Inspirada nas próprias filhas, Isabela Feres criou uma história infantil para ensinar respeito às diferenças; obra já é utilizada por terapeutas e foi adotada como leitura escolar em São Paulo.


Mãe de duas meninas autistas transforma desafios da inclusão em livro infantil Livro infantil de Isabela Feres conta com audiodescrição para ampliar a acessibilidade. Foto: Divulgação.
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O que começou como uma tentativa de explicar às crianças as diferenças de suas duas filhas autistas ganhou as páginas de um livro infantil e agora também faz parte de atividades realizadas por terapeutas e escolas. 

A história é da escritora e ativista Isabela Feres, de Londrina, no Paraná, autora de Todo Mundo É Legal na Floresta Tropical, obra que utiliza personagens e elementos da natureza para conversar com crianças sobre diversidade, respeito e inclusão.

Publicado pela Editora Agora Vai, com ilustrações de Bruno Leite, o livro nasceu de uma preocupação muito particular. Isabela queria ajudar outras crianças a compreender que suas filhas, Malu e Gabi, poderiam ter maneiras diferentes de se comunicar, brincar e interagir, mas que essas características não deveriam ser motivo de afastamento ou exclusão.

Inicialmente, a ideia era produzir uma cartilha artesanal para distribuir entre as crianças. Mas o projeto cresceu. 

Inspirada pela diversidade da natureza, a escritora decidiu transformar a proposta em uma narrativa infantil. 

Na história, as irmãs Gabi e Malu descobrem, de maneira lúdica, que cada ser tem suas próprias características e que conviver com as diferenças faz parte da vida.

“Eu queria explicar para as outras crianças que as diferenças das minhas filhas não são só delas. Mesmo quem não tem uma deficiência também tem suas diferenças, porque ninguém é igual”, conta Isabela.

A preocupação com a inclusão também está presente no formato da publicação. Além das ilustrações e da narrativa infantil, Todo Mundo É Legal na Floresta Tropical conta com um recurso de audiodescrição, pensado para ampliar a acessibilidade da obra.

“Quando decidi escrever sobre inclusão, também pensei em como tornar o próprio livro mais acessível. Queria que crianças cegas e crianças com dislexia também tivessem a oportunidade de conhecer essa história. Afinal, não faria sentido falar sobre respeito às diferenças sem pensar em diferentes formas de acesso à leitura”, explica Isabela.

Das páginas do livro para as salas de aula

A proposta da escritora já começa a encontrar espaço em ambientes educacionais e terapêuticos. Segundo Isabela, profissionais utilizam a obra em atividades com crianças, e uma escola de São Paulo incluiu o título como leitura obrigatória para alunos do ensino fundamental.

“Já temos terapeutas trabalhando com o livro e escolas utilizando a história. Uma escola de São Paulo, inclusive, adotou a obra como leitura obrigatória para alunos do ensino fundamental. É muito especial perceber que uma ideia que nasceu dentro da nossa casa está chegando a outras crianças e ajudando a abrir conversas sobre inclusão”, afirma a escritora.

A experiência mostra como histórias infantis podem se transformar em ferramentas de diálogo. Ao acompanhar personagens com características diferentes, as crianças encontram oportunidades para conversar sobre amizade, convivência e pertencimento, inclusive quando essas questões ainda são difíceis de expressar em palavras.

Por que falar sobre diferenças desde a infância?

Na escola, as diferenças aparecem de muitas formas. Há crianças que precisam de mais tempo para realizar atividades, outras que se comunicam de maneiras distintas, apresentam sensibilidades sensoriais ou necessitam de apoio para participar de brincadeiras e interações.

Quando essas particularidades não são compreendidas, podem surgir situações de isolamento, preconceito e exclusão. Por isso, especialistas em educação inclusiva defendem que o respeito à diversidade seja trabalhado desde os primeiros anos de vida, tanto na escola quanto em casa.

A literatura infantil pode contribuir para esse diálogo ao apresentar experiências e personagens com os quais as crianças se identificam ou por meio dos quais conhecem outras realidades.

Uma dissertação de mestrado defendida em 2025 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), intitulada Entre voos, imagens e gestos: representações do autismo na literatura infantil, analisou três obras infantis e discutiu o potencial dessas narrativas para valorizar a diversidade, favorecer a identificação de crianças autistas com personagens e contribuir para práticas educativas mais inclusivas.

A pesquisa também destaca a importância da participação das famílias e das escolas na formação de leitores e na ampliação do acesso à literatura.

Uma maternidade atravessada por diferentes formas de inclusão

Cirurgiã-dentista de formação, Isabela se afastou da odontologia e passou a dedicar-se à escrita, à produção de conteúdo e à defesa da inclusão.

Mãe de Malu, que completa nove anos em janeiro, e Gabi, que faz oito em novembro, ela vive uma experiência familiar atravessada por diferentes dimensões da diversidade. Malu é negra e chegou à família por meio da adoção, quando Isabela já estava grávida de Gabi.

A maternidade de duas meninas autistas, uma delas por adoção interracial, também aproximou a escritora de discussões sobre racismo, capacitismo, identidade, pertencimento e os desafios enfrentados pelas famílias na busca por uma infância mais inclusiva.

Para Isabela, falar sobre diferenças com as crianças não deve se limitar à deficiência. A proposta é ampliar o olhar sobre aquilo que torna cada pessoa única, sem transformar essas características em barreiras para a convivência.

O papel das famílias e das escolas

A literatura, sozinha, não elimina preconceitos nem resolve os desafios da inclusão escolar. Mas pode abrir caminhos para conversas importantes, especialmente quando a leitura é acompanhada por adultos dispostos a ouvir perguntas, acolher dúvidas e incentivar o respeito.

Para famílias, professores e terapeutas, histórias que apresentam diferentes formas de existir e participar do mundo podem funcionar como ponto de partida para abordar o autismo, a deficiência, as diferenças raciais e a convivência entre crianças.

Mais do que ensinar que todos são diferentes, o desafio é mostrar que essas diferenças não diminuem o direito de ninguém de brincar, aprender, fazer amigos e pertencer.

É essa reflexão que Isabela procura levar às páginas de Todo Mundo É Legal na Floresta Tropical: a de que a inclusão também começa nas histórias que contamos às crianças e na maneira como ensinamos a olhar para o outro.

Sobre Isabela Feres

Isabela Feres é escritora, ativista e cirurgiã-dentista de formação, residente em Londrina (PR). Mãe de duas meninas autistas, uma delas negra e adotada, dedica-se à produção de conteúdo e à defesa da inclusão, abordando temas como maternidade atípica, autismo, adoção interracial, racismo, capacitismo e direitos das crianças com deficiência. É autora do livro infantil Todo Mundo É Legal na Floresta Tropical, publicado pela Editora Agora Vai, com ilustrações de Bruno Leite.


Instagram: @isaferes


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