MALAGUETA por Iran de Souza
Para que serve um bilionário?
por Iran de Souza
Clube dos bilionários da Terra: exclusivo, fechado e indiferente à pobreza e à desigualdade que grassam no mundoVocê conhece algum bilionário? Eu não conheço. Nem quero. Aos meus olhos, não são pessoas interessantes nem confiáveis. Para começo de conversa, ninguém alcança este patamar de fortuna se for solidário e humano.
Porque a receita da ultrarriqueza é outra: ganância sem limite, escrotice a perder de vista, escrúpulo zero e submissão de todas as relações da vida, inclusive as familiares, à lógica da propriedade e do lucro.
Quando penso nisso quem me vem imediatamente à lembrança é Logan Roy, o barão da mídia na série Succession (HBO Max): narcisista e inescrupuloso, arrivista que fustiga a guerra de poder entre os próprios filhos, pilantra cuja palavra não vale o que o gato enterra.
E não venha alegar que um personagem de ficção como esse escroque não exemplifica, a rigor, o que acontece na vida real. Porque o coiso foi, até o pescoço, inspirado em bilionários de carne e osso.
Entre eles Summer Redstone, ex-CEO da Viacom e CBS; Roberto Maxwell, magnata britânico da imprensa; e Rupert Murdoch, o fundador da News Corporation e dono da Fox News, o canal de TV que os negacionistas de tudo, os papadores de fake news com farinha, os supremacistas brancos, os extremistas de direita e os desmiolados da Terra em geral, especialmente os que falam inglês, gostam de chamar de seu.
Felizmente os dois primeiros já voltaram ao pó da terra. Agorinha mesmo devem estar pelando o rabo em seus assentos de sal e enxofre no Conselho de Administração do Inferno, cujo CEO é Satanás, o Coisa Ruim em pessoa.
Murdoch, indo pros cem anos, com certeza já está com o jatinho embicado pra lá também. Não desejo a morte de ninguém — longe de mim invocar os poderes escatológicos e escalafobéticos do ódio —, mas este um não fará falta à humanidade. Horinha dessas a indesejada das gentes o levará. E já será tarde.
Ah, arrisco dizer ainda que, por motivos óbvios, o atual ocupante da Casa Branca também está no pacote dos inspiradores de Succession. Outro para quem o Coisa Ruim certamente guarda um lugar ardendo em brasa... Deixa ele!
Aí aquela figura com cabeça de alfinete — incrustada de fake news, de teses neoliberais bem rasas (a meritocracia é a primeira, claro) e cheia de preconceitos cultivados na platitude — vem e me diz:
— Qual é o teu problema com os super-ricos, hein Irisvaldo? Deve ser inveja deles, né? Inveja e ressentimento. Tu vives aí arrotando que já fizeste isto e aquilo na vida, que o teu Lattes tá ficando mais parrudo que moleque criado no açaí, mas até onde eu sei tu mal tens onde cair morto. És um pé-rapado. Te enxerga!
Adianta explicar para o/a cabeça de alfinete que a ultrarriqueza é uma anomalia e, como tal, criadora de monstros? Adianta pontuar que pessoas excessivamente ricas costumam atropelar os interesses de nações e povos inteiros em benefício dos próprios negócios? Adianta lembrar que ninguém precisa de tanto dinheiro para viver com dignidade? Adianta argumentar que os 800 bilhões de dólares de um certo sul-africano com tendências neonazistas não o/a favorecem em nada, muito pelo contrário? Que diferença faz para alguém com esse tipo de mentalidade tosca o fato de que os bilionários que tanto cultuam são, hoje, os maiores inimigos da democracia e do próprio futuro do planeta?
Vade retro! E mais: não me venha com este papo Joãozinho Trinta de que intelectual gosta de pobreza. Eu não gosto. Abomino pobreza. O que é bem diferente de odiar pobres, viu? Isto já é aporofobia. A solução não é exterminá-los, como as cabeças mais ocas e os corações mais desprovidos de empatia supõem — é abrir possibilidades para que superem essa condição.
Por outro lado, não acho que um lixeiro deva ganhar o mesmo que um neurocirurgião; que uma secretária deva faturar tanto quanto o empregador; que o motorista deva ter renda igual à do dono da empresa; que um técnico deva ter a mesma remuneração de um cientista.
O problema é outro: a distância absurda que existe atualmente entre os vencimentos dos que ganham menos e dos que ganham mais. Um verdadeiro fosso. Além disso, quem tem maior renda sempre paga menos imposto — quando paga —, principalmente neste pentacampeão da desigualdade que é o Brasil.
Direi agora uma maluquice: todo mundo deveria ser milionário. Calma! Peraí! Vou explicar: o ideal seria que todos, sem exceção, tivessem pelo menos um milhão de patrimônio. Patamar mínimo, entende? Questão de política pública!
Assim todos poderíamos comprar iPhones, roupas bacanas, casa própria, prover educação de qualidade para os filhos, viajar nas férias... Ninguém passaria fome, nem pediria esmola, nem viveria de favor.
Como fazer isso? Ora, primeiramente investindo em educação. Depois, como sugere o professor Piketty, incentivando quem tem talento para ser empreendedor a empreender, quem tem vocação para pesquisa a pesquisar, quem tem gosto pela escrita a escrever, quem tem jeito para a agricultura a plantar e colher, quem gosta da vida militar a ser milico. E por aí vai... Assegurando, contudo, que ninguém ganhe duzentas, trezentas, quinhentas, mil vezes mais que o outro, por mais sofisticados que sejam os seus ofícios e a sua formação. Pois é aí que mora a desigualdade, essa paixão dos dias em que vivemos, como diz Rancière, o filósofo francês de origem argelina.
Resumindo a ópera: para que uns possam ter mais, outros precisam ter menos. E esses outros são os ultrarricos. Aqueles que têm muito mais do que precisam. E só sabem multiplicar, não sabem dividir.
Mas já que eu, jornalista sem renome e professor ainda sem posto universitário, não tenho autoridade para defender essas teses aí, fui atrás de quem tem. Leia no texto seguinte o que dizem os mestres da filosofia, economia, sociologia, religião e antropologia sobre o caráter dos ricos e a posse de riquezas.
Sobre o caráter dos ricos e a posse de riquezas
Aristóteles (Retórica): “[Os ricos] são petulantes e até grosseiros, porque estão habituados a que toda a gente os admire, e também porque creem que os outros desejam o que eles têm”.
Jesus Cristo (Mateus 6:19-24) — "Não ajunteis tesouros na terra [...] Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração [...] Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”.
Karl Marx (O Capital) — “O capital [do rico] é trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas sugando trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho suga”.
Hannah Arendt (A condição humana) — "A riqueza [...] caracteriza-se por ser fluida e por derivar sua própria essência do processo de acumulação; ela só se torna utilizável quando é transformada em meio de produzir mais riqueza”.
Jacques Rancière (O desentendimento) — “Com efeito, a lei da oligarquia é [...] que a riqueza seja imediatamente idêntica à dominação”.
André Comte-Sponville (O capitalismo é moral?) — “Se o mercado virasse uma religião, seria a pior de todas, a do bezerro de ouro. E a mais ridícula das tiranias, a da riqueza”.
Thomas Piketty (Capital e ideologia) — “Os bilionários acreditam que tudo lhes é permitido [...] e nada lhes é mais detestável que as soluções simples e rebarbativas (pagar impostos, viver com sobriedade)”.
Michel Alcoforado (Coisa de rico) — “Alguém que tem berço ou nasceu em berço de ouro, sem qualquer esforço, vê a própria distinção como algo natural, toma como dada a desigualdade social do país e se livra de qualquer peso moral ou culpa”.
Jessé Souza (A elite do atraso) — “O Brasil não simplesmente abandonou os escravos e seus descendentes à miséria. Os brasileiros das classes superiores cevaram a miséria e a construíram ativamente [...] Não se entende a miséria permanente e secular dos nossos excluídos sociais sem esse ativismo social e político covarde e perverso de nossas classes 'superiores’”.
Encontro de bilionários no Rio
Bem, já que o Jessé Souza, sociólogo, e o Michel Alcoforado, antropólogo, botaram a pátria amada da desigualdade, o Brasil, na roda da conversa, vamos assuntar discretamente a prosa de dois bilionários que se encontram, casualmente, em um hangar de uso exclusivo de ricaços, políticos e celebridades, no Rio de Janeiro.
Ao descerem de seus jatinhos particulares, os dois se esbarram e travam a seguinte conversa:
Bilionário do ovo: Diga lá, celebridade. Belo Rolex, hein? Também quero um desses pra minha coleção. Como vão a linda esposa e os filhos?
Bilionário da TV: Todos bem, graças a Deus. Mas logo os meninos vão estudar na Suíça, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Não quero nem pensar no vazio que a casa vai ficar. E você, como vão os negócios?
Bilionário do ovo: Poderiam estar melhor. Preciso contratar mais gente pras minhas fazendas, fábricas, frigoríficos e granjas, mas mão de obra está muito difícil de achar no Brasil, viu? O povo só quer saber do Bolsa Família. Trabalhar que é bom...
Bilionário da TV: Pois é, esse governo aí afrouxou demais com isso. Quando for presidente vou acabar com o Bolsa Família, viu? Não darei o peixe. Ensinarei a pescar.
Bilionário do ovo: Não vão querer. Vão dizer que jogar e puxar o anzol, a rede ou o paneiro de pesca é cansativo demais. Estão mal acostumados, querem só vida mansa, cachaça e pagode. Mudando de assunto, como está o seu fundo de investimentos?
Bilionário da TV: Bombando! Gestão profissional! Só fera! A rentabilidade é ótima. Experimente!
Bilionário do ovo: Cinco milhões dá pra começar?
Bilionário da TV: Bota logo dez milhões. Retorno garantido!
Bilionário do ovo: Pode ser. Vou ver com o meu financeiro.
Bilionário da TV: Vem sempre ao Rio?
Bilionário do ovo: Não tanto quanto gostaria. E quase só a negócio. Hoje tenho reunião no BNDES. Consegui 500 milhões de crédito pra expandir algumas plantas industriais do grupo. Logo vamos entrar no ramo da carne bovina também. Daqui a pouco assinaremos contrato com o banco.
Bilionário da TV: Maravilha! Parabéns! Quando for presidente, vou duplicar as linhas de crédito do BNDES para o setor produtivo e para a área de infraestrutura também. Questão de prioridade.
Bilionário do ovo: Isso, sim, é dinheiro público bem aplicado.
Bilionário da TV: Verdade! Tem tempo para um jantar de comemoração? Minha loura e eu teríamos muita honra em receber você e quem mais vier junto.
Bilionário do ovo: Rapaz, eu decolo hoje mesmo pra Nova York. Business, of course. Depois levarei a família pra esquiar em Aspen.
Bilionário da TV: Que bela coincidência! Semana que vem nós também estaremos lá.
Bilionário da ovo: Então fechou! A gente se vê e celebra juntos no Colorado.
Bilionário da TV: Até lá, então.
Bilionário do ovo: Até mais. Foi bom te ver, celebridade.
Bilionário da TV: Também foi bom te ver, rei do ovo.
Imagem gerada por IA
Repentistas do Nordeste para os donos do mundo: "Os bilhões de vocês são estrume... e deles o cordel faz adubo"
Cordel de Davos
Para botar ainda mais pimenta e pirraça nesta coluna, vou contar um causo.
Dois violeiros nordestinos, Erisvaldo e Ariosvaldo, famanazes de alto quilate, contraparentes mui distantes deste que vos escreve, foram convidados para abrir o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
Vindos do Sertão de Rodelas, abusados e sem papas na língua — será mal de família? —, os “primos” do colunista aproveitaram a oportunidade e esfregaram os seguintes versos na cara dos donos do mundo:
Erisvaldo
Excelências de roupas finas,
senhores da terra, mar e ar,
viemos do Sertão de Rodelas
para o mundo chacoalhar.
No frio arretado da Suíça,
onde os luxentos fazem morada,
a viola famanaz do Nordeste
nunca, jamais será calada.
Trazemos em nossa trouxa
a dor de quem geme de fome
para esta terra de conforto
onde miséria nem tem nome.
Vocês só contam bilhões
em telões de alta finança,
num querem saber de carença
de homem, mulher e criança.
Ariosvaldo
É vexame que só aumenta,
dói no coração e dá revolta
ver o bolso de uns tão cheio
sem fazer partilha de volta.
O gráfico que vocês olham
com orgulho e vaidade
é o mesmo que condena
quase toda a humanidade!
Enquanto os jatinhos pousam
trazendo os donos do mundo,
os pobres coitados sofrem
sem teto, sem pão, sem fundo.
Vocês negociam de tudo:
petróleo, ouro, carne, grão,
e choram, seus mãos de vaca,
quando é pra dividir o pão.
Ariosvaldo e Erisvaldo
Escutem, donos da terra,
imperadores do capital:
nenhum reinado se aguenta
causando assim tanto mal.
Se a riqueza de vocês
é só pra juntar aos tubos,
vossos bilhões são estrume...
e deles o cordel faz adubo!
Como disse Cristo Jesus
ao rico que foi lhe ouvir,
o céu não tem morada
pra quem não sabe dividir.
Agora já vamos indo.
Este não é nosso lugar.
E vão pro quinto dos infernos.
O diabo espera vocês lá.
Iran de Souza (Irisvaldo Laurindo de Souza) é jornalista, professor universitário, doutor e pós-doutorando em Letras, na área de Literatura. Escreve quinzenalmente no Portal Rede Metrópole.








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