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MALAGUETA por Iran de Souza

O Hexa vem aí? Sei não, viu?

por Iran de Souza

Fotos de arquivo pessoal, com efeitos de IA
O Hexa vem aí? Sei não, viu? O colunista ontem e hoje: 13 Copas do Mundo na linha do tempo, pouca esperança na Seleção Brasileira atual

 [1]

É fácil reconhecer um chato. Ele não gosta de futebol. Ou porque é um fundamentalista religioso que condena o esporte bretão. Ou porque é um fundamentalista político que só vê o lado capitalista da coisa.

A esta altura da minha travessia sob a Via Láctea, para citar aqui um belo verso de Antônio Moura, superei a rigidez de um e de outro. Deixei de ser o chato que eu era lá pelos vinte, vinte e cinco anos, quando tinha certeza de que o mundo não prestava para nada e que o futebol era parte do jogo perverso da vida.

O mundo é injusto? É. Sempre foi. E sempre será. Mas ainda que a injustiça não se resolva, como também poetava Drummond, viver tem lá suas graças e alegrias. E o futebol é uma delas.

Você, que é esperto e não deve ser chato, já percebeu aonde esta prosa vai dar — na Copa do Mundo, claro. 

De minha parte, já vi um bocado de mundiais. Mas nunca estive tão desesperançado, como neste ano de 2026 depois de Cristo, na Seleção Brasileira de Futebol.

[2]

O que ainda me agrada no time atual é o técnico. O currículo de Carlo Ancelloti fala por si. Já ganhou de tudo como treinador. Além disso, todo mundo diz que é um sujeito de fino trato. 

E os italianos são assim: ou muito bacanas ou bem antipáticos. Conheço uns e outros. Don Carletto joga no primeiro time. Ainda bem.

Do que menos gosto na Seleção Brasileira? Ora, do time em si. Se eu fosse o treinador — para o bem do futebol, minhas vocações são outras —, Alisson, Lucas Paquetá, Bruno Guimarães, Gabriel Magalhães, Casemiro, Alex Sandro, Matheus Cunha, Léo Pereira e Gabriel Martinelli estariam, como estou agora, em casa, vendo os jogos pela TV.

Desculpe-me ainda a ignorância futebolística, mas não sei nem quem são Danilo, Bremer, Fabinho, Igor Thiago e Ibañez. Você pode me dizer?

Em meu time teriam lugar, sim, Marquinhos, Rayan, Endrick, Raphinha, Vini Jr., Luiz Henrique e Weverton, que aliás foi goleiro do Remo, o Leão de Antônio Baena, o maior clube do Norte. 

Ederson... não sei. Quanto a Neymar, que ganhou um bilhão de petrodólares para jogar menos de dez partidas nas Arábias, bem, esse aí já se aposentou faz tempo. Não entendi a convocação dele até agora. O marketing, com toda a certeza, explica.

A ausência mais pesarosa no escrete de Don Carletto, para mim, é a do menino Estevão, por contusão. Superior em técnica, inteligência e velocidade a qualquer outro jogador da seleção, eu apostaria nele para craque do time em particular e do torneio em geral. Mas 2030 vem aí, garoto; a gente te espera...

A tirar pelo cartão de visitas dado pela Seleção, no empate em 1 x 1 com o Marrocos, digo e redigo que minhas esperanças no Hexa são mínimas, próximas a zero.

Mas se eu estiver errado, maravilha! Metamorfose ambulante, no melhor estilo Raul Seixas, adoro mudar de ideia. Estou pronto para queimar a língua! Haja o que houver! Venha o que vier! Já disse que não sou mais um chato. E luto dia sim, outro também, para não voltar a ser.

Quem não gosta de comemorar um título? Eu adoro! Principalmente se for do Leão Azul, do Mengão, do Tricolor paulista, da Raposa mineira, do Colorado gaúcho ou da Seleção Canarinho; times que mexem com o meu coração de torcedor não fanático — nem vou mais a estádio e, quando ia, era quase sempre a trabalho —, porém vivido, experimentado e com umas e outras histórias e memórias de Copas do Mundo para contar.

[3]

A bem da verdade, as recordações que tenho de Copas do Mundo são mais tristes que alegres. Das treze que acompanhei — embora em 1986 e 1990 mal tenha parado diante da TV —, o Brasil ganhou apenas duas, em 1994 e 2002; e só uma com brilho, umazinha só, a segunda.

Como o Eu Lírico de Raul Seixas — ele de novo por aqui! — na canção “Eu nasci há dez mil anos atrás”, aquele um que viu de tudo e um pouco mais no curso da História, eu também vi muita, muita coisa em Copas do Mundo.

Na minha linha do tempo só não entram, infelizmente, a de 1970, quando estava nas fraldas, e as anteriores, quando ainda não tinha sido amorosamente concebido por meus pais na noite enluarada do agreste pernambucano.

Mas depois disso eu vi, por exemplo, o Carrossel Holandês de Johan Cruyff despachar o Brasil de volta para casa em 1974.

Eu vi a Argentina ganhar a Copa de 1978 dentro e fora de campo, com a ajuda das forças nem tão ocultas assim da ditadura militar mais sangrenta e cretina de todos os tempos; deixando para o Brasil, invicto, um inglório terceiro lugar.

Eu vi, ou melhor, ouvi pelo rádio no interior do Maranhão, a catástrofe de 1982 quando a nossa seleção dos sonhos levou peia da Itália (3 x 2). Um trauma que, com certeza, deflagrou a depressão que quase me levaria pro buraco dez, doze anos depois... Nem quero lembrar!

Decidido a não mais sofrer pelas trapalhadas de onze marmanjos incapazes de tratar a bola com o devido carinho, cuidado e respeito, resolvi que jamais voltaria a gastar meu precioso tempo de vida com futebol.

E foi com essa falta de vontade que vi sem querer, numa festa de casamento que parou para acompanhar a disputa de pênaltis entre Brasil e França em 1986, o Zico, ídolo dos ídolos da minha geração, fazer o que jamais fizera: errar a cobrança. 

Já vi de tudo nesta vida, minha Nazica!

Da Copa de 1990, então, nem me fale. Naquela, eu vi de relance a patacoada da seleção de Sebastião Lazaroni, talvez a mais medíocre de todos os tempos, nos bares pelos quais andei bebendo cerveja em Belém e São Luís do Maranhão. No meio da galera, sabe como é, né?, não dava para nadar contra a correnteza.

"As recordações que tenho de Copas do Mundo são mais tristes que alegres. Das treze que acompanhei — embora em 1986 e 1990 mal tenha parado diante da TV —, o Brasil ganhou apenas duas, em 1994 e 2002; e só uma com brilho, a segunda."

Eu vi a Copa de 1994, muito contra a vontade, porque estava de namorada nova à época, e ela queria porque queria torcer pelo time do retranqueiro Carlos Alberto Parreira.

Fora o partido alto eventual de Romário e Bebeto no ataque, era um futebol chato, tipo pagodinho. No meio de campo, o Zinho — lembra? — pegava a bola, girava e mandava a pelota de volta para a defesa. Irritante!

E se o título veio nos pênaltis contra a Itália, você, que entende mais de futebol do que eu, sabe que foi golpe de sorte. Porque pênalti é jogo de azar que nem porrinha e dadinho... É zebra! É loteria!

Comemorei o tetra, claro, mas não vibrei.

Eu vi, em 1998, apenas o primeiro tempo da paulada de 3 x 0 que o Brasil levou da França de Zinédine Zidane na final. Quando saiu o segundo gol fui pra sacada do apartamento fumar — vício deprimente que largaria três anos depois — e não voltei mais, mundiado que estava, mais até que o convulso Ronaldo Fenômeno.

Eu vi em 2002 — e disso jamais vou esquecer — a pancada do escrete de Felipão na Alemanha, na final. Dois gols do Fenômeno em tempo normal. Aquilo, sim, foi vitória com V maiúsculo!

Mesmo sem ter com quem comemorar na intimidade, solteiro, saído de um namoro tóxico do qual prefiro nem lembrar, fui pra rua, bebi cerveja, soltei o grito de pentacampeão: 

— Braaaasiiiilllll!!! 

Ah, viver pode até ser complicado, mas nessas horas é bom demais! 

Eu vi, em 2006, a seleção do Parreira — égua, ele de novo! —, o retranqueiro, voltar pra casa despachada pela França.

Eu vi, em 2010, a Holanda botar o time medíocre de Dunga, aquele escrete de muita marra e pouco futebol formado à imagem e semelhança do técnico, no devido lugar: 2 x 1 — e tchau, Brasil!

Eu vi, em 2014, o maior desastre futebolístico de todos os tempos: Alemanha 7 x 1 Brasil. Podemos pular esta parte, por favor? Estou sem dinheiro para pagar terapia.

Eu vi, em 2018, a brilhante Seleção da Bélgica ensinar pra gente como é que se joga futebol. Tá lembrado daquele 2 x 1? Desde então sou Bélgica desde criancinha, viu?

Eu vi, por fim, em 2022, a Croácia de Luka Modrić mostrar para o Brasil, ao vivo e em cores, como é que se bate pênalti.

[4]

E agora, em 2026, você e eu veremos o quê, hein?

Reitero, com a franqueza que me é peculiar — virginiano super sincero que sou , não acreditar que veremos o Brasil ser Hexacampeão Mundial.

Mas se for, tudo bem — ótimo! Darei o braço a torcer. E irei pra rua comemorar. Vumbora?


Iran de Souza [Irisvaldo Laurindo de Souza] é jornalista, professor universitário, doutor e pós-doutorando em Letras: Literatura. Escreve quinzenalmente no Portal Rede Metrópole.


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