Da amêndoa à barra: curso transforma cacau em oportunidades para mulheres do Médio Xingu
Iniciativa realizada em Altamira abre portas para o empreendedorismo feminino ao ensinar a produção de chocolate com cacau cultivado na região amazônica.
O cheiro do chocolate recém-produzido toma conta da sala enquanto as mãos seguem concentradas em cada etapa do processo. Em cima das bancadas, amêndoas fermentadas, nibs cuidadosamente separados e barras ganhando forma revelam muito mais do que uma oficina de chocolatier. Em Altamira, no Pará, um curso oferecido pela Norte Energia, concessionária da Usina Hidrelétrica Belo Monte, para 16 mulheres da região do Médio Xingu transformou conhecimento técnico em oportunidade, autoestima e perspectiva de renda.
A região concentra atualmente mais de 80% da produção de cacau de todo o estado do Pará, despontando como um dos maiores pilares da cadeia cacaueira no Brasil. Apesar da força dessa atividade produtiva, boa parte do fruto ainda deixa o território paraense apenas em formato de amêndoa. O curso surgiu justamente para mudar essa lógica: ensinar mulheres a transformar a matéria-prima local em chocolate, agregando valor comercial e abrindo caminho para o desenvolvimento de novos negócios.
"Eu posso resumir em uma única frase: é uma porta aberta. É mais uma qualificação e eu já estou em um projeto de abrir minha empresa, começar a empreender. Com esse curso aqui, eu vou poder abrir minha própria empresa", afirmou Edivânia Nascimento Mendonça, moradora do Travessão 45, na área rural de Vitória do Xingu, que já possuía experiência em chocolate artesanal e buscou a capacitação para avançar no mercado. Para ela, o aprendizado fortalece diretamente a confiança das participantes. "Nós passamos a nos sentir empoderadas. Carregamos a certeza de que tudo nós podemos".
Valor agregado e protagonismo feminino
O grande diferencial prático da formação é o aprofundamento no processo de extração da manteiga do cacau, um subproduto de alto valor de mercado que amplia significativamente a margem de lucro de pequenos produtores. Quem se encantou com essa possibilidade foi Ingrid Dayane Silva, moradora do Travessão do Pernambucano, em Senador José Porfírio, cuja família produz cacau em pequena escala. A filha de Ingrid já comercializava barras recheadas feitas com chocolate comprado no mercado, mas agora o plano é fabricar o próprio chocolate utilizando o fruto da propriedade.
"Quando falaram que o curso ensinava diretamente da amêndoa, a gente viu que não podia perder essa oportunidade. O professor ensinou desde o processo de deixar o cacau no chão, juntar, levar para fermentação, quantos dias virar, cuidados para não pegar cheiro. Tudo isso faz diferença para produzir um chocolate bom", explicou Ingrid. Ela reforçou o impacto financeiro da mudança: "Quando você vende o cacau só na semente, o valor ainda é baixo. Mas quando transforma em manteiga, o valor agregado é muito maior. Eu fiquei encantada com essa possibilidade de poder empreender, melhorar nosso produto e crescer financeiramente".
Rede de apoio estrutural
A capacitação possui carga horária de 40 horas e reuniu conhecimentos voltados a toda a cadeia produtiva do chocolate amazônico, que hoje é reconhecido nacional e internacionalmente. Promovida por meio do programa Belo Monte Comunidade, a ação é realizada em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e direcionada às integrantes do Instituto Amazônia - Coletivo de Mulheres Artesãs e Filhas do Xingu, organização que apoia mulheres em situação de vulnerabilidade social.
A presidente do instituto, Josimeire Rodrigues, explicou que o coletivo reúne hoje 174 mulheres e atua para criar redes de apoio e sustentabilidade. Ela destacou que o suporte da concessionária foi fundamental para garantir custos básicos como alimentação e material para as alunas vindas de localidades distantes, como Assurini, Ressaca, Buriti e Santa Benedita. "Não é só sobre ter o instrutor. Muitas vezes a mulher não tem nem o que almoçar para passar o dia no curso. Sem esse apoio de base, muitas desistiriam".
De acordo com Thomás Sottili, gerente de Projetos de Sustentabilidade da Norte Energia, a meta é incentivar novos empreendimentos sustentáveis e valorizar a vocação da região. Ele pontuou que o projeto se conecta a outras ações voltadas a comunidades tradicionais. "Hoje já existem seis marcas de chocolate indígenas apoiadas pela Norte Energia e outras duas marcas criadas por meio do programa Belo Monte Empreende". Como exemplo prático de circularidade, as amêndoas utilizadas no curso vieram da produção da indígena Katyana Xipaya, dona da marca de chocolate Sídjä Wahiü ("Mulher Guerreira") e ex-aluna do programa de empreendedorismo da concessionária.











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