Superdotação ganha política nacional, mas desafio da identificação ainda deixa milhares de estudantes invisíveis
Nova legislação amplia o olhar sobre estudantes com altas habilidades, mas especialistas alertam que a falta de identificação continua impactando aprendizagem, saúde mental e qualidade de vida.
A criação da Política Nacional para Altas Habilidades ou Superdotação representa um marco para uma população que, historicamente, permaneceu invisível dentro das escolas brasileiras. A proposta busca fortalecer ações de identificação, acompanhamento e atendimento educacional especializado para estudantes com altas habilidades. Mas especialistas alertam que um dos maiores desafios ainda está longe de ser resolvido: reconhecer esses alunos antes que eles passem anos enfrentando dificuldades sem compreender o que está acontecendo.
Embora estimativas internacionais indiquem que entre 3% e 5% da população apresente altas habilidades ou superdotação, o número de estudantes oficialmente identificados no sistema educacional brasileiro ainda está muito abaixo do esperado. Para a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, a subidentificação continua sendo uma das maiores barreiras.
"Durante muitos anos, a superdotação foi associada apenas ao aluno com notas altas ou desempenho excepcional em todas as áreas. Hoje sabemos que isso não corresponde à realidade. Existem perfis muito diversos, e muitos estudantes passam despercebidos porque não se encaixam nos estereótipos que a sociedade criou sobre inteligência." — explica Silvia Kelly Bosi.
Segundo a especialista, não é raro que crianças e adolescentes superdotados sejam vistos como desatentos, desmotivados ou até problemáticos quando suas necessidades não são compreendidas. A identificação, portanto, não serve para rotular, mas para permitir oferecer suporte adequado para que potencial e bem-estar caminhem juntos.
Muito Além do Alto QI
A nova política também contribui para ampliar a compreensão pública sobre o que significa ser superdotado. Para a psicóloga Thaís Barbisan, uma das maiores dificuldades ainda é combater a ideia de que altas habilidades significam apenas facilidade acadêmica.
"Existe uma crença equivocada de que a pessoa superdotada não precisa de apoio porque já possui vantagens naturais. Na prática, muitos enfrentam desafios emocionais, dificuldades de pertencimento, perfeccionismo, ansiedade e sensação constante de inadequação. A inteligência elevada não protege contra o sofrimento psicológico." — afirma Thaís Barbisan.
Em alguns casos, a falta de acolhimento, compreensão e suporte adequado pode até aumentar determinadas vulnerabilidades quando não existe a devida estrutura para o estudante.
Quando a Identificação Chega Apenas na Vida Adulta
A história do pesquisador Gustavo Gattino ajuda a ilustrar essa realidade. Doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, e pesquisador das áreas de neurodesenvolvimento, saúde mental e altas habilidades, ele recebeu sua identificação como pessoa com superdotação apenas na vida adulta.
"Quando recebi minha identificação, muitas experiências da minha vida finalmente passaram a fazer sentido. Foi um processo que não explicou apenas minhas facilidades, mas também várias dificuldades emocionais e sociais que eu havia vivenciado ao longo da trajetória." — relata Gustavo Gattino.
Para o pesquisador, um dos maiores equívocos sobre a superdotação é imaginar que a inteligência elevada elimina dificuldades emocionais ou dispensa recursos de apoio. Muitos convivem com sensação de inadequação, perfeccionismo intenso, dificuldades de pertencimento, ansiedade e frustração por não encontrarem ambientes que compreendam suas características. Estudo e dados científicos mostram que a falta de identificação e de suporte adequado pode trazer impactos importantes para a saúde mental ao longo da vida.
O Papel da Escola e o Custo da Invisibilidade
Para Gustavo, um dos principais avanços da nova política é ampliar a possibilidade de que escolas e profissionais estejam mais preparados para reconhecer esses estudantes. Quanto mais cedo acontece a identificação, maiores são as chances de oferecer desafios compatíveis, acolhimento emocional e estratégias que favoreçam tanto o desenvolvimento acadêmico quanto a saúde mental.
Especialistas alertam que a falta de identificação não significa ausência de dificuldades. Muitas crianças e adolescentes superdotados podem apresentar desmotivação escolar, isolamento social, sofrimento emocional e até quadros de ansiedade e depressão quando não encontram ambientes capazes de compreender suas necessidades.
Outro fenômeno frequente é a chamada dupla excepcionalidade, que ocorre quando as altas habilidades coexistem com condições como autismo, TDAH, dislexia ou outros transtornos do neurodesenvolvimento. Nesses casos, um perfil pode mascarar o outro, tornando o processo diagnóstico ainda mais complexo.
Uma Oportunidade para Mudar o Cenário
Apesar dos desafios, a nova política é vista como uma oportunidade para ampliar o debate e construir uma rede de apoio mais consistente para estudantes, famílias e educadores. Trata-se de enxergar crianças e adolescentes em sua totalidade, considerando não apenas o potencial intelectual, mas também as necessidades emocionais, sociais e educacionais que acompanham esse perfil.
"A sociedade costuma enxergar a superdotação pelo potencial. Eu acredito que precisamos enxergá-la também pela humanidade. São pessoas que, como qualquer outra, precisam de compreensão, pertencimento e saúde emocional para desenvolver plenamente suas capacidades." — conclui Gustavo Gattino.











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