MALAGUETA por Iran de Souza
Me engana que eu gosto: a epidemia das bets
por Iran de Souza
Epidemia: as bets invadiram o marketing esportivo, o horário nobre da TV, os podcasts, os canais do YouTube e os feeds das redes sociais[1]
Se há algo que dá medo na gente é o vício, seja qual for. Diga respeito à comida, à bebida, ao sexo, às drogas ou ao jogo, o comportamento compulsivo demarca uma linha tênue entre a sanidade e a loucura, a razão e a estupidez.
Depois da Covid-19, quando cerca de 700 mil brasileiros morreram, a maioria por irresponsabilidade e desumanidade de um governo extremista e negacionista, outra doença contagiosa grassa no País: a doença das bets.
Uma epidemia sem precedentes! É só ligar a TV, o celular, o computador ou o tablet para ser bombardeado por ofertas de plataformas de apostas online. É pop-up que não acaba mais. Um pé no saco!
Eu, particularmente, nunca apostei um centavo em bet. Nem vou. Não sei nem como funciona. Tenho mais o que fazer com o meu dinheirinho suado.
Já disse aqui na Malagueta que aposto aqui e acolá na Mega Sena — loteria em que faturei há dezesseis anos uma quina que me ajudou a comprar um carro novo e a pagar implantes dentários; e na qual também cravei algumas quadras que, vez por outra, bancaram restaurantes, vinhos e livros.
Noves fora zero, admito que estou no prejuízo com a Loteria Federal. E, também por isso, mantenho-me vigilante em relação a comportamentos meus que tendem à compulsão.
Ciente de que minha química cerebral é terreno fértil para eles, boto freio mesmo. Imponho-me limites. Ao menos tento. Até o momento estou sob controle. Se um dia perder as estribeiras e o bom senso, buscarei ajuda profissional.
[2]
A compulsão por apostas online está destruindo vidas, famílias e relacionamentos no Brasil. Todos os dias a imprensa noticia falcatruas, investigações, prisões, mortes suspeitas e suicídios relacionados às bets.
Legalizadas pelo então presidente Michel Temer em 2018 — logo por quem! —, as apostas de cota fixa podem até estar dentro da lei, mas o esquema que operam é suspeito.
Ao contrário das loterias tradicionais, cujos resultados são aleatórios, as bets dão aos apostadores a sensação falsa de que seus conhecimentos sobre determinado assunto — futebol e esportes em geral, cultura pop e política etc. — vão lhes garantir prêmios. Uma ilusão de controle agravada pelo acesso ao celular 24 horas por dia.
E as plataformas exploram isso sem dó nem piedade. Os aplicativos e sites de apostas têm um tremendo apelo visual, além de operar com interfaces intuitivas e dinâmicas de gamificação que transformam tudo, absolutamente tudo em jogo.
Psicólogos e psiquiatras observam que, em vista da onipresença do smartphone, a linha que separa o entretenimento e a patologia foi apagada pelas bets. Criou-se um sistema de recompensas — prefiro chamar de círculo vicioso — que libera ciclos de dopamina no jogador.
É um negócio tão viciante, mas tão viciante que se assemelha — apesar de ter outra dinâmica — à dependência de substâncias químicas. Já ganhou até nome próprio, ludopatia, embora os especialistas prefiram chamar de transtorno do jogo. A diferença é que, ao invés de destruir o corpo e a mente, destroça o bolso da pessoa.
Espalhada entre a classe média, a epidemia das bets causa ainda mais estragos entre os pobres, que são a maioria da população neste hexacampeão da desigualdade chamado Brasil.
A coisa está tão feia, mas tão feia, que o atual governo criou mecanismos para evitar que beneficiários de programas sociais façam apostas online. Agiu certíssimo. Ponto para ele.
"Bet é um negócio tão viciante, mas tão viciante que se assemelha — apesar de ter outra dinâmica — à dependência de substâncias químicas. Já ganhou até nome próprio, ludopatia, embora os especialistas prefiram chamar de transtorno do jogo. A diferença é que, ao invés de destruir o corpo e a mente, destroça o bolso da pessoa."[3]
Enquanto tanta gente sofre e perde o pouco que tem por acreditar nas trapaças e lorotas das bets, há um punhado de espertos que está se dando muito bem com este negócio suspeito, obrigado.
O futebol, esse, então, deixou-se dominar financeiramente por elas. Abriu, literalmente, as pernas. Qual o time da Série A do Brasileirão que não é patrocinado por bets? Lembra de algum? Eu não lembro.
Nas emissoras de TV, campeonatos inteiros e blocos de comerciais foram comprados por essas marcas.
Está aí a Copa do Mundo que não me deixa mentir. Deveria mudar de nome para Copa das Bets, na qual até os apresentadores e comentaristas trabalham para nos vender esse peixe estragado. Ganhando a bolada deles, claro!
Para além do marketing esportivo em geral — lembrando que os patrocínios não se restringem ao futebol —, as bets também invadiram o horário nobre da TV, os podcasts, os canais do YouTube e os feeds das redes sociais. Uma epidemia, como eu disse.
Outros embaixadores de primeira hora das plataformas e aplicativos de apostas online são os influenciadores digitais, incluindo artistas, subcelebridades, celebridades e até jogadores de futebol que às vezes trabalham e faturam mais fora do que dentro de campo.
Ora, você sabe muito bem de quem estou falando — daquelas criaturas sem qualquer senso de responsabilidade social que ostentam carros de luxo, roupas de grife, iates, helicópteros, jatinhos, joias, mansões e viagens aos paraísos da Terra, não apenas aos de águas límpidas e cristalinas, mas também aos que lavam dinheiro sujo.
Para mim, essa gente é golpista — sim, a palavra é esta: golpista —, já que não se furta a usar contas de demonstração nas quais a possibilidade de as plataformas perderem é zero. Repito: zero.
Sabe o que é pior em tudo isso? De acordo com os economistas, além dos efeitos psicossociais causados pelas bets, elas provocam uma transferência de renda popular, em grandes proporções, para as corporações de apostas online, muitas das quais nem sequer são sediadas no Brasil.
Principalmente nas classes D e E, as pessoas estão deixando de comprar arroz, feijão, carne e remédios para apostar em bets, crentes de que vão se dar bem. Acabam endividadas, desesperadas e, não raro, dão cabo da própria vida.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com Vinícius Ferreira, de 28 anos, que morava em Marília (SP) e já acumulava dívidas de R$ 90 mil; e também com Otacílio Prates, de 46, um auditor do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) que morava em Salvador e endividou-se em R$ 1,5 milhão, apostando online.
Que descansem em paz!
Por essas e tantas outras vidas destruídas e perdidas, o que já fala por si, e por tanto mais que argumentei aqui, eu digo e repito: não me amole com papo de bets.
Vade retro, Satanás! Meu corpo não te pertence. Embora fraco e sujeito a tentações como qualquer ser humano, este um aqui detesta ser enganado e tem horror ao vício.
Iran de Souza (Irisvaldo Laurindo de Souza) é jornalista, professor universitário, doutor e pós-doutorando em Letras: Literatura. Escreve quinzenalmente no Portal Rede Metrópole








COMENTÁRIOS