Pesquisa com participação do Pará transforma resíduo do babaçu em proteína para abrir nova frente de renda para comunidades amazônicas
Tecnologia inédita de fermentação eleva em 4,5 vezes o teor proteico da farinha de babaçu e cria ingrediente para o mercado de plant-based; projeto foi financiado com R$ 2,7 milhões do Fundo JBS pela Amazônia.
Com a participação ativa do Estado do Pará, por meio da Rede Terra do Meio do Alto Xingu, uma pesquisa inovadora desenvolvida pela deep tech paulista de biotecnologia industrial BIOINFOOD conseguiu transformar a farinha do mesocarpo de babaçu — subproduto até então sem destino industrial — em um ingrediente proteico de alto valor agregado para o mercado de alimentos. A Rede Terra do Meio, que reúne 35 organizações de povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares que protegem cerca de 9 milhões de hectares, forneceu amostras e recebeu a equipe de cientistas em visitas técnicas às comunidades.
A tecnologia, desenvolvida em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), utiliza processos de biotecnologia para multiplicar por mais de quatro vezes o teor proteico da farinha, elevando o índice de 1,5% para cerca de 7%. O resultado final é um ingrediente de textura fibrosa e sabor equilibrado, ideal para a fabricação de hambúrgueres e outros itens do segmento plant-based (alimentos à base de plantas minimamente processados).
Os resultados científicos foram apresentados na New Meat Brazil, evento de referência em proteínas alternativas no país realizado em São Paulo. A pesquisa contou com o aporte de R$ 2,7 milhões do Fundo JBS pela Amazônia, através do Programa Biomas InovAmazônia do GFI Brasil.
"O InovAmazônia foi o maior projeto apoiado pelo fundo no eixo de Pesquisa e Desenvolvimento desde sua criação, em 2020. A Amazônia tem oportunidades que ainda não foram aproveitadas, e as pesquisas que apoiamos mostram que é possível construir um futuro diferente para as comunidades amazônicas e para toda a cadeia de alimentos brasileira" — destaca Lucas de Oliveira Scarascia, Gerente Executivo de Projetos do Fundo JBS pela Amazônia.
Da Quebradeira de Coco ao Ingrediente Industrial
O babaçu é explorado há décadas por comunidades extrativistas espalhadas pelo Pará, Maranhão, Piauí e Tocantins. Estima-se que mais de 62 mil pessoas em 50 mil domicílios dependam dessa atividade, com destaque para as quebradeiras de coco — mulheres que realizam a coleta e o beneficiamento artesanal do fruto. Apesar de o potencial técnico das áreas disponíveis ser de 1,5 milhão de toneladas anuais, a produção atual mal atinge 4% desse total.
O principal apelo econômico do babaçu sempre esteve focado no óleo extraído de sua amêndoa. A farinha do mesocarpo, que sobra do processo, costumava ser descartada. É justamente esse resíduo que a tecnologia conseguiu converter em matéria-prima nobre.
"O InovAmazônia demonstrou que a biodiversidade brasileira não precisa ficar só no discurso – ela pode estar no prato. O projeto da BIOINFOOD com o babaçu é um exemplo concreto de como conseguimos uma sustentabilidade ainda maior quando olhamos para o aproveitamento completo de espécies nativas, agregando valor a partes que hoje são subaproveitadas" — afirma Cristiana Ambiel, Diretora de Ciência e Tecnologia do GFI Brasil.
Funcionamento do Processo Tecnológico e Impactos
O processo produtivo combina seleção de cepas de levedura, hidrólise enzimática e fermentação em biorreatores automatizados. As leveduras convertem os açúcares presentes na farinha em biomassa proteica sem requerer novas áreas de cultivo ou desmatamento. A validação em escala laboratorial culminou com a produção de um protótipo de hambúrguer plant-based, degustado simbolicamente por Cornelia Rodrigues (a Nelinha do Babaçu), líder comunitária que representa as quebradeiras de coco.
"Ao gerar um ingrediente proteico alternativo, nosso projeto contribui diretamente para redução da dependência de proteínas de maior impacto ambiental e possibilita a diversificação das fontes de proteína vegetal. Em termos de impactos socioeconômicos, o destino mais nobre do coproduto promove o aumento da renda das comunidades extrativistas e estimula a permanência das populações tradicionais em seus territórios" — explica Osmar Netto, PhD, cofundador da BIOINFOOD e líder do projeto.
Com o mercado global de proteínas alternativas previsto para atingir US$ 88,8 bilhões até 2034, a BIOINFOOD busca agora parceiros industriais para avançar para a fase de produção em escala piloto. Além do babaçu, a mesma plataforma de fermentação pode ser adaptada para valorizar outros coprodutos da bioeconomia amazônica e brasileira, como cascas de castanha-do-Brasil, macaúba, cupuaçu e resíduos agrícolas de milho e arroz.











COMENTÁRIOS