Quem vai formar os líderes da era da inteligência artificial?
O desafio não é usar menos inteligência artificial, mas garantir que ela amplie, em vez de substituir, o julgamento das futuras lideranças
Juliana Velozo é executiva com atuação internacional em estratégia, inteligência artificial e comportamento humano nos negócios. A inteligência artificial já faz parte da rotina de milhões de profissionais.
Ela resume documentos, organiza informações e acelera tarefas que antes consumiam horas de trabalho.
Ao ampliar a produtividade, também nos convida a refletir sobre algo menos evidente: como essa nova forma de trabalhar influencia o modo como desenvolvemos nosso próprio julgamento?
Essa preocupação já aparece nas pesquisas. Levantamento da Gallup mostra que 42% dos jovens afirmam que o uso da IA prejudica seu pensamento crítico, e 80% temem que essa dependência comprometa seu aprendizado.
Outra pesquisa, da GoTo com a Workplace Intelligence, mostra que metade dos profissionais já reconhece depender mais da IA do que gostaria, e 39% acreditam que isso está reduzindo habilidades que antes desenvolviam naturalmente.
Esses números não significam que a inteligência artificial seja um problema.
Eles mostram que estamos diante de uma transformação que amplia a discussão sobre como formamos profissionais e, principalmente, futuras lideranças.
Julgamento profissional não nasce apenas do acesso à informação: ele é construído pela experiência de interpretar contextos, formular boas perguntas, lidar com diferentes perspectivas e tomar decisões em cenários onde nem todas as informações estão disponíveis.
Hoje, profissionais iniciam a trajetória já com acesso a ferramentas capazes de escrever códigos, produzir relatórios e sugerir caminhos para problemas complexos. É uma oportunidade real de ganho em produtividade, mas também um convite a garantir que essas ferramentas fortaleçam, e não reduzam, competências que seguirão essenciais na carreira.
Essa reflexão ganhou ainda mais força para mim durante o Data + AI Summit, em San Francisco.
Em conversas com empresas, pesquisadores e lideranças globais, ficou evidente que o debate já não se concentra apenas na evolução das ferramentas, mas em como preparar pessoas para decidir melhor em um ambiente onde a IA já faz parte da rotina.
Um estudo do Stanford Digital Economy Lab reforça essa urgência: identificou queda de 16% nas vagas para profissionais de 22 a 25 anos em áreas como desenvolvimento de software, justamente a fase em que boa parte do aprendizado acontece na prática, ao lado de quem tem mais experiência. Fica então a pergunta: como formar lideranças se essa experiência passa a ser compartilhada com sistemas de IA?
Não creio que essa seja uma discussão sobre restringir a tecnologia.
A inteligência artificial é um dos avanços mais relevantes das últimas décadas e continuará ampliando nossa capacidade de analisar informações.
O desafio é garantir que ela apoie o raciocínio, e não substitua o processo de reflexão.
Por isso, as empresas têm uma oportunidade agora: além de ensinar o uso de ferramentas de IA, podem criar ambientes em que profissionais em início de carreira sejam estimulados a construir análises próprias e receber mentoria.
O mesmo vale para os critérios de sucessão, que podem ir além da eficiência operacional e observar também como as pessoas raciocinam diante de situações inéditas.
A inteligência artificial e as formas de trabalhar vão continuar evoluindo, mas isso não diminui o valor das competências que sempre sustentaram boas lideranças como o pensamento crítico, repertório e julgamento.
Talvez o maior desafio das organizações não seja incorporar novas tecnologias, mas formar profissionais capazes de utilizá-las de forma consciente e responsável.
Sobre Juliana Velozo
Juliana Velozo é executiva com atuação internacional, Senior Vice President of Latin America Market for Retail & Healthcare, palestrante e especialista em estratégia, inteligência artificial e comportamento humano nos negócios.
Atua na transformação de modelos de negócio, desenvolvimento de lideranças e implementação de estratégias orientadas a resultados, conectando tecnologia, tomada de decisão e performance sustentável.
LinkedIn - https://www.linkedin.com/in/juliana-velozo/












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