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Ele entende tudo, mas não fala: até quando esperar a fala da criança acontecer sozinha?

Especialistas explicam por que compreender o que os adultos dizem não significa, necessariamente, que o desenvolvimento da linguagem esteja adequado


Ele entende tudo, mas não fala: até quando esperar a fala da criança acontecer sozinha?
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“Ele entende tudo o que eu falo, só não fala.” A frase é comum entre pais de crianças pequenas que apresentam atraso na fala e, muitas vezes, acaba servindo como justificativa para adiar uma avaliação. Afinal, se a criança compreende comandos, reconhece pessoas e objetos e consegue se comunicar por gestos, seria apenas uma questão de tempo até as palavras aparecerem?

Nem sempre.

Compreender a linguagem e conseguir expressá-la são habilidades diferentes. Uma criança pode apresentar boa compreensão e, ainda assim, ter dificuldades para transformar aquilo que entende em palavras, frases e comunicação funcional. Por isso, observar apenas se a criança “entende” não é suficiente para compreender como está seu desenvolvimento.

“Quando acompanhamos o desenvolvimento infantil, é importante olhar para a criança de forma global. A maneira como ela brinca, interage, imita, demonstra interesses, responde às pessoas e lida com as situações do cotidiano também traz informações importantes. Esses sinais ajudam a identificar quando pode existir alguma necessidade de investigação mais aprofundada”, explica Silvia Kelly Bosi, neuropsicopedagoga especialista em autismo e mestre em psicologia.

A avaliação específica da linguagem e da comunicação, porém, deve ser realizada por um profissional habilitado para essa finalidade. No caso de uma criança com atraso ou dificuldade de fala, a avaliação fonoaudiológica é fundamental para compreender quais habilidades estão preservadas e quais precisam de atenção.

“Não devemos olhar apenas para a quantidade de palavras que a criança fala. A avaliação fonoaudiológica permite investigar diferentes aspectos da linguagem e da comunicação, como compreensão, expressão, intenção comunicativa, interação e uso funcional da linguagem. A partir disso, conseguimos definir quais estratégias e intervenções são mais adequadas para aquela criança”, afirma Paula Anderle, fonoaudióloga especialista em desenvolvimento da comunicação.

Quando “ele entende tudo” não é suficiente

Um dos equívocos mais comuns é considerar que uma boa compreensão elimina a possibilidade de existir uma dificuldade de linguagem. Na prática, compreensão e expressão podem apresentar ritmos diferentes de desenvolvimento.

Outro sinal que merece atenção é quando a criança começa a falar, mas seu repertório não evolui como esperado, permanece muito restrito ou não avança para combinações de palavras e formas mais complexas de comunicação.

“É importante respeitar o ritmo individual, mas isso não significa esperar indefinidamente diante de sinais persistentes. Quando existe uma diferença significativa entre o que a criança consegue compreender e aquilo que consegue expressar, a família pode buscar orientação profissional para entender melhor esse desenvolvimento”, destaca Paula.

Não é preciso esperar um diagnóstico para buscar ajuda

As especialistas reforçam que uma dificuldade de fala não significa automaticamente autismo ou qualquer outro transtorno do neurodesenvolvimento. Diferentes fatores podem estar relacionados ao desenvolvimento da linguagem, e cada criança precisa ser analisada individualmente.

Nesse processo, diferentes profissionais podem contribuir a partir de suas respectivas áreas de atuação.

“O trabalho interdisciplinar é importante justamente porque cada profissional observa aspectos diferentes do desenvolvimento. A neuropsicopedagogia pode contribuir para compreender questões relacionadas à aprendizagem e ao desenvolvimento da criança, enquanto a Fonoaudiologia avalia especificamente os aspectos da comunicação e da linguagem. Essa troca pode ampliar a compreensão sobre as necessidades de cada criança”, afirma Silvia.

Para Paula, o mais importante é não transformar a espera em uma estratégia quando existem sinais que preocupam a família.

“Intervir não significa pressionar a criança para que ela fale. Significa entender o que está acontecendo e oferecer condições para que ela desenvolva sua comunicação da maneira mais funcional possível. A avaliação é o primeiro passo para identificar necessidades e direcionar o acompanhamento”, explica.

Cada criança tem seu tempo, mas os sinais também precisam ser observados

Respeitar a individualidade da criança é fundamental. Ao mesmo tempo, observar seu desenvolvimento e procurar orientação diante de dúvidas permite que eventuais dificuldades sejam identificadas mais cedo.

A principal recomendação é que os pais não avaliem o desenvolvimento apenas pelo número de palavras que a criança produz. Gestos, intenção comunicativa, compreensão, interação, brincadeira, imitação e evolução do repertório também fazem parte dessa história.

Quando houver preocupação com a fala ou com a comunicação, a orientação é buscar uma avaliação fonoaudiológica, que poderá indicar se existe alguma alteração e quais caminhos de intervenção são necessários.

Mais do que esperar a fala aparecer espontaneamente, conhecer o desenvolvimento da criança e buscar a avaliação adequada permite transformar a preocupação dos pais em informação e cuidado.

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