Criança agitada ou sobrecarregada? O que o comportamento pode estar tentando comunicar
Dificuldades de regulação sensorial são mais comuns do que parecem e a terapia ocupacional ajuda a traduzir sinais que muitas vezes são confundidos com falta de limite
Divulgação/banco de imagens Freepik A cena é comum: a criança que não para quieta na sala de aula, que se irrita com facilidade, evita certos alimentos ou não tolera barulhos e texturas. Para muitos adultos, esses comportamentos ainda são interpretados como “falta de limite” ou indisciplina. Mas, em muitos casos, o que está por trás dessas reações é uma dificuldade de regulação sensorial, um aspecto do desenvolvimento infantil que vem ganhando atenção nos consultórios e nas escolas.
A regulação sensorial diz respeito à forma como o cérebro recebe, organiza e responde aos estímulos do ambiente, como sons, luz, toque e movimento. Quando esse processamento não acontece de maneira eficiente, a criança pode ficar mais agitada, irritada ou, ao contrário, retraída, não por escolha, mas por dificuldade em lidar com o excesso (ou a falta) de estímulos.
Segundo a terapeuta ocupacional Catiuscia Homem, CEO da Bloom, entender esse processo é essencial para evitar rótulos equivocados e garantir o suporte adequado. “Muitas crianças são vistas como ‘difíceis’, quando, na verdade, estão sobrecarregadas sensorialmente. O comportamento é uma forma de comunicação e, quando a gente aprende a ler esses sinais, muda completamente a forma de intervir”, explica.
Sinais que merecem atenção
Embora cada criança tenha seu próprio ritmo de desenvolvimento, alguns comportamentos podem indicar dificuldade de regulação sensorial:
Incômodo intenso com barulhos, luzes ou multidões
Seletividade alimentar relacionada a textura ou temperatura
Evitar contato físico ou, ao contrário, buscar estímulos o tempo todo
Dificuldade em permanecer sentada ou focada por períodos curtos
Reações desproporcionais a pequenas frustrações
De acordo com Catiuscia, esses sinais costumam aparecer tanto em casa quanto na escola e muitas vezes são percebidos primeiro pelos professores. “A escola é um ambiente rico em estímulos e, por isso, acaba evidenciando essas dificuldades. Por isso, o diálogo entre família e educadores é fundamental”, afirma.
O papel da terapia ocupacional
É nesse contexto que entra a terapia ocupacional, com foco no desenvolvimento da autonomia e na adaptação da criança ao ambiente. A intervenção envolve atividades lúdicas, ajustes na rotina e estratégias para ajudar o cérebro a processar melhor os estímulos do dia a dia.
“A terapia ocupacional não busca ‘controlar’ a criança, mas ajudá-la a se organizar internamente para que ela consiga participar das atividades com mais conforto e autonomia. Muitas vezes, pequenas mudanças na rotina e no ambiente já fazem uma grande diferença”, destaca Catiuscia Homem.
O que pais e educadores podem fazer
Além do acompanhamento profissional, algumas atitudes podem ajudar no dia a dia:
Observar padrões de comportamento e possíveis gatilhos
Evitar julgamentos e punições imediatas
Oferecer previsibilidade na rotina
Criar ambientes com menos sobrecarga sensorial
Validar os sentimentos da criança
Mais do que corrigir comportamentos, o desafio é compreender o que eles estão tentando dizer. Em um cenário de aumento das queixas relacionadas à atenção, comportamento e aprendizagem, a escuta qualificada e o olhar para o desenvolvimento sensorial podem ser decisivos para promover bem-estar e qualidade de vida desde a infância.











COMENTÁRIOS