Autismo em mulheres: por que o diagnóstico pode chegar só na adolescência ou vida adulta?
Camuflagem social, diagnósticos diferenciais e sinais que passam despercebidos ajudam a explicar por que algumas mulheres passam anos sem compreender as próprias dificuldades
Meninas e mulheres podem passar anos tentando entender por que determinadas situações sociais, sensoriais ou de comunicação parecem mais difíceis para elas do que para outras pessoas. Em alguns casos, a resposta só aparece na adolescência ou na vida adulta, quando acontece uma investigação para o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Um dos fatores que pode contribuir para esse diagnóstico mais tardio é a chamada camuflagem social, quando a pessoa desenvolve estratégias para imitar comportamentos sociais esperados, esconder dificuldades ou evitar situações nas quais se sente desconfortável.
“O autismo não tem uma única forma de apresentação. Algumas meninas aprendem muito cedo a observar e reproduzir comportamentos sociais, e isso pode fazer com que determinadas características passem despercebidas. Por isso, é importante olhar para a história de desenvolvimento da pessoa e não apenas para o comportamento que ela apresenta naquele momento”, explica Silvia Kelly Bosi, neuropsicopedagoga especialista em autismo e desenvolvimento infantil.
Segundo a especialista, a identificação tardia também pode fazer com que a mulher passe parte da vida interpretando suas dificuldades como falhas pessoais.
“Muitas mulheres chegam ao diagnóstico depois de anos ouvindo que eram tímidas, exageradas, difíceis ou que precisavam simplesmente se esforçar mais para se adaptar. Quando existe uma avaliação adequada, elas podem finalmente compreender que determinadas dificuldades tinham uma explicação e que não se tratava simplesmente de falta de esforço”, afirma Silvia.
A avaliação, no entanto, exige cuidado. Ansiedade, TDAH e outras condições podem apresentar características que se sobrepõem às do autismo, tornando o diagnóstico diferencial fundamental.
“Não basta identificar um ou dois comportamentos e concluir que existe autismo. É necessário avaliar o conjunto de características, a história de desenvolvimento e o impacto delas na vida da pessoa. O diagnóstico diferencial é importante justamente para evitar interpretações equivocadas”, explica Thaís Barbisan, psicóloga e neuropsicóloga.
Para Thaís, a investigação na vida adulta também pode acontecer após acontecimentos que aumentam a percepção das próprias dificuldades, como mudanças profissionais, maternidade ou situações de maior exigência social.
“Algumas mulheres conseguem utilizar estratégias de compensação durante muitos anos, mas chegam a um momento da vida em que essas estratégias deixam de ser suficientes. Isso pode acontecer diante de mudanças na rotina, aumento das responsabilidades ou esgotamento. É nesse contexto que algumas começam a questionar se existe algo além daquilo que sempre entenderam como ansiedade, timidez ou dificuldade de socialização”, afirma.











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