Brasil tem mais mães acima dos 40 anos mesmo com queda no número de nascimentos
Dados do Ministério da Saúde mostram que os registros de partos de mulheres nessa faixa etária cresceram 71% entre 2000 e 2024; geneticista explica o que muda na fertilidade, quais riscos aumentam e por que o planejamento reprodutivo deve envolver o casal
A maternidade depois dos 40 anos deixou de ser um acontecimento tão incomum no Brasil. Enquanto o número total de partos diminuiu nas últimas décadas, os registros de mulheres que tiveram filhos a partir dessa idade seguiram na direção oposta. Entre 2000 e 2024, os partos de mães com 40 anos ou mais passaram de aproximadamente 60 mil para 102 mil por ano, um crescimento de 71%. No mesmo período, o total de partos com nascidos vivos caiu 26%.
Os dados, extraídos do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), do Ministério da Saúde, revelam uma transformação no perfil da maternidade brasileira. Em 2000, aproximadamente um em cada 53 partos registrados era de uma mulher com 40 anos ou mais. Em 2024, essa proporção chegou a um em cada 23. Quando considerada a faixa a partir dos 35 anos, foram cerca de 426 mil partos em 2024, quase 18% do total.
A mudança acompanha transformações sociais e comportamentais, como a maior permanência das mulheres nos estudos, a construção da carreira profissional, a busca por estabilidade financeira e as mudanças nos projetos familiares. A ampliação do acesso às técnicas de reprodução assistida também contribuiu para oferecer novas possibilidades a quem deseja ter filhos mais tarde.
Mas, junto com essa mudança, surgem dúvidas importantes: até que ponto a idade interfere na fertilidade? Quais riscos realmente aumentam para a mãe e o bebê? A fertilização in vitro consegue compensar os efeitos do envelhecimento dos óvulos?
Para o médico geneticista Dr. Paulo Zattar Ribeiro, compreender essas questões é fundamental para que as mulheres possam tomar decisões reprodutivas com informação, sem alarmismo e sem falsas promessas.
“A gestação depois dos 40 não é mais uma exceção. Estamos falando de mais de 100 mil famílias por ano no Brasil. Precisamos tratar essa realidade com informação, e não com medo. A idade modifica as probabilidades, mas não determina sozinha o desfecho de uma gestação”, explica.
O que muda biologicamente depois dos 40?
Um dos principais fatores envolvidos na redução da fertilidade feminina é o envelhecimento dos óvulos. Diferentemente de outras células do organismo, eles acompanham um processo biológico que começa antes mesmo do nascimento da mulher. Com o passar dos anos, além da redução da reserva ovariana, aumenta a probabilidade de alterações na distribuição dos cromossomos durante a formação dos embriões.
Essas alterações, chamadas de aneuploidias, ocorrem quando o embrião apresenta cromossomos a mais ou a menos do que deveria. Elas estão entre as principais causas de falhas de implantação e abortamentos espontâneos, especialmente em idades maternas mais avançadas.
Segundo estimativas de estudos científicos da Striata, aproximadamente 70% dos embriões avaliados aos 30 anos apresentam número cromossômico normal. Aos 42 anos, essa proporção pode cair para cerca de 27%.
“É importante entender que o útero e os óvulos não envelhecem no mesmo ritmo. A fertilização in vitro pode superar algumas barreiras reprodutivas, mas não consegue rejuvenescer um óvulo. Por isso, a idade em que a mulher decide engravidar ou preservar a fertilidade faz diferença”, esclarece o geneticista.
A idade também influencia as taxas de sucesso dos tratamentos. Dados de reprodução assistida da Striata, empresa de Paulo, indicam uma redução expressiva nas taxas de nascimento por ciclo de fertilização in vitro com óvulos próprios conforme a idade avança. Em determinadas situações, a utilização de óvulos doados pode representar uma alternativa com maiores chances de sucesso.
Quais riscos realmente aumentam?
A idade materna avançada está associada a uma maior probabilidade de alterações cromossômicas, abortamentos espontâneos e algumas complicações obstétricas, como pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e parto prematuro. Isso, entretanto, não significa que toda gestação depois dos 40 será considerada de alto risco ou terá um desfecho desfavorável.
Entre mulheres de 40 a 44 anos, estima-se que aproximadamente uma em cada três gestações termine em abortamento espontâneo, sendo as alterações cromossômicas do embrião uma das principais explicações.
O risco de síndrome de Down também aumenta com a idade materna. Aos 40 anos, a estimativa apresentada pelo especialista é de aproximadamente um caso para cada 100 nascimentos. Atualmente, exames de rastreamento, como o teste pré-natal não invasivo (NIPT), que analisa fragmentos de DNA fetal presentes no sangue materno, permitem estimar a probabilidade de algumas alterações cromossômicas. Quando necessário, exames diagnósticos específicos podem confirmar ou afastar determinadas condições.
“Risco aumentado não significa que o problema necessariamente vai acontecer. A informação permite identificar situações que merecem acompanhamento mais cuidadoso e orientar a mulher sobre as possibilidades disponíveis. O objetivo não é assustar, mas permitir escolhas conscientes”, afirma Paulo Zattar Ribeiro.
O especialista também chama atenção para a necessidade de evitar associações equivocadas entre idade materna e condições como o autismo. Embora estudos apontem associações estatísticas entre idade parental e maior probabilidade de diagnóstico, a relação é complexa e o aumento do risco absoluto é pequeno. A idade, isoladamente, não permite prever o desenvolvimento de uma criança.
O planejamento reprodutivo também envolve os homens
Outro aspecto pouco discutido é a influência da idade paterna. Embora o envelhecimento reprodutivo masculino aconteça de maneira diferente do feminino, ele também produz alterações biológicas.
Com o passar dos anos, as divisões celulares que dão origem aos espermatozoides acumulam novas mutações no DNA. Um estudo publicado na revista Nature, em 2012, estimou o acréscimo de aproximadamente duas mutações espontâneas a cada ano de idade paterna. A maioria delas não provoca doenças, mas algumas podem estar relacionadas a condições genéticas raras.
“O homem também tem um relógio biológico, embora ele funcione de maneira diferente e mais gradual. Por isso, o planejamento reprodutivo precisa considerar os dois parceiros, e não concentrar toda a responsabilidade sobre a mulher”, destaca o médico.
Nesse contexto, o aconselhamento genético e os exames de compatibilidade genética entre parceiros podem ajudar a identificar riscos de transmissão de doenças hereditárias recessivas, inclusive em casais sem histórico familiar conhecido.
Quando ambos são portadores de variantes patogênicas no mesmo gene relacionado a uma doença recessiva, existe 25% de probabilidade de o filho desenvolver a condição em cada gestação.
Informação antes da gravidez
Para o geneticista, a avaliação pré-concepcional é especialmente importante para mulheres acima dos 40 anos, mas o planejamento reprodutivo não deve começar apenas quando surgem dificuldades para engravidar.
A investigação pode considerar reserva ovariana, histórico reprodutivo, condições gerais de saúde, idade e características do parceiro, além de aspectos genéticos do casal. A partir dessa avaliação, é possível discutir alternativas como tentativa natural, fertilização in vitro com óvulos próprios, teste genético dos embriões em situações indicadas ou ovodoação.
“Eu atendo uma pessoa, não uma idade. Duas mulheres com a mesma idade podem apresentar condições reprodutivas completamente diferentes. O mais importante é avaliar cada história e apresentar possibilidades reais, sem prometer resultados e sem impor um prazo de validade à maternidade”, conclui.
Sobre o especialista
Dr. Paulo Victor Zattar Ribeiro é médico geneticista, CRM-SP 229854 | RQE 139920, com atuação em genética médica, doenças raras e reprodução assistida. Trabalha com aconselhamento genético e investigação de condições hereditárias, contribuindo para o planejamento reprodutivo e a compreensão dos riscos genéticos envolvidos na formação de uma família.











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