Violência, fugas e afogamentos: os riscos que tornam a prevenção ainda mais urgente para crianças autistas
Crianças podem estar mais vulneráveis em determinadas situações e quais estratégias ajudam famílias, escolas e sociedade a prevenir tragédias antes que elas aconteçam.
Mayra Gaiato é psicóloga, neurocientista e uma das principais referências brasileiras em autismo. Casos recentes envolvendo violência contra pessoas vulneráveis, desaparecimentos e acidentes fatais voltaram a colocar a segurança infantil no centro do debate.
Para especialistas, porém, a discussão precisa ir além da repercussão de tragédias e incluir um tema ainda pouco abordado: as vulnerabilidades específicas enfrentadas por muitas crianças autistas.
Para Mayra Gaiato, psicóloga e neurocientista, fugas inesperadas, afogamentos, violência, acidentes domésticos e situações de risco no ambiente digital fazem parte de uma realidade que exige estratégias próprias de prevenção e uma rede de proteção que envolva famílias, escolas, profissionais e toda a sociedade. "Segurança também precisa fazer parte do plano de cuidado. Assim como ensinamos comunicação, autonomia e habilidades sociais, também precisamos ensinar a criança a reconhecer situações de risco e preparar os adultos para agir de forma preventiva. Proteger também é desenvolver", explica a psicóloga.
Fugas: um risco que pode ser fatal
Um dos maiores desafios é o elopement, termo utilizado para descrever episódios em que a criança se afasta inesperadamente dos responsáveis ou de um ambiente seguro.
Essas fugas não acontecem por desobediência. Em muitos casos, a criança está tentando escapar de uma sobrecarga sensorial, seguir um interesse específico ou explorar um ambiente sem compreender os perigos ao redor.
As consequências podem ser graves. Estudos mostram que cerca de 71% das mortes relacionadas ao elopement em crianças autistas ocorrem por afogamento. "Supervisão não significa apenas olhar de longe. Em locais com água, ruas movimentadas ou ambientes desconhecidos, muitas vezes é necessário que o adulto permaneça próximo, ao alcance de um braço. Pequenas atitudes podem salvar vidas", orienta Mayra.
Ela também recomenda barreiras físicas, como portões trancados, alarmes em portas, cercas ao redor de piscinas, além do uso de pulseiras de identificação e dispositivos de localização em passeios e viagens.
A água merece atenção redobrada
Muitas crianças autistas demonstram grande interesse por água, seja em piscinas, rios, lagos ou praias. Essa atração, associada à dificuldade de perceber riscos em algumas situações, aumenta a necessidade de vigilância.
"Aprender a nadar é importante para qualquer criança, mas, no caso do autismo, aulas adaptadas desde cedo podem representar uma estratégia adicional de proteção. Saber flutuar pode fazer diferença em uma situação de emergência, embora nunca substitua a supervisão constante", afirma.
Ensinar segurança também faz parte do desenvolvimento
Outro aspecto pouco discutido é a prevenção da violência.
Dependendo do perfil da criança, dificuldades de comunicação, de interpretação das intenções das outras pessoas ou de reconhecer situações de perigo podem aumentar sua vulnerabilidade.
Por isso, ensinar segurança precisa fazer parte da rotina.
"Precisamos conversar sobre quem pode ajudar, quem pode tocar no corpo, o que fazer se a criança se perder e como pedir ajuda. Esses aprendizados devem ser adaptados ao nível de compreensão de cada criança, utilizando recursos visuais, histórias sociais e muita repetição quando necessário", explica Mayra.
Os riscos também estão no ambiente digital
À medida que crescem, muitas crianças e adolescentes autistas passam a utilizar jogos on-line, redes sociais e aplicativos de mensagens. Esse ambiente também exige acompanhamento.
Segundo Mayra, é fundamental que as famílias conheçam as plataformas utilizadas pelos filhos, conversem sobre privacidade, exposição de informações pessoais e mantenham supervisão compatível com a idade e o nível de autonomia da criança.
"A internet oferece oportunidades de aprendizagem e socialização, mas também apresenta riscos. Assim como ensinamos uma criança a atravessar a rua com segurança, precisamos ensiná-la a navegar no ambiente digital de forma protegida."
Ambientes públicos exigem planejamento
Shoppings, parques, aeroportos, praias e grandes eventos podem representar desafios para muitas crianças autistas, principalmente por causa do excesso de estímulos sensoriais ou da dificuldade em lidar com mudanças de rotina.
Por isso, o planejamento faz diferença.
Conhecer previamente o local, combinar pontos de encontro, utilizar identificação, explicar o que acontecerá durante o passeio e respeitar os limites da criança são medidas que reduzem riscos e tornam essas experiências mais seguras.
Vigilância constante
Para a jornalista Debora Saueressig, mulher autista e mãe de Benjamin, de 8 anos, também autista, a preocupação com a segurança acompanha a família diariamente. "Quem convive com uma criança autista aprende que a prevenção faz parte da rotina. Não porque nossos filhos sejam incapazes, mas porque muitas vezes eles percebem o mundo de uma forma diferente e podem não reconhecer determinados riscos. A gente pensa na fuga, na água, em ambientes desconhecidos, em pessoas mal-intencionadas. É uma atenção constante", relata Debora Saueressig.

Segundo ela, esse estado permanente de vigilância também cobra um preço das famílias. "Existe um momento em que o medo começa a limitar a vida. Muitos pais deixam de viajar, evitam parques, praias, shoppings ou eventos porque estão sempre imaginando tudo o que pode dar errado. Sem perceber, a família inteira vai se isolando. O desafio é encontrar um equilíbrio entre proteger e permitir que a criança viva experiências importantes para o desenvolvimento."
Para Debora, a informação ajuda justamente a construir esse caminho. "Quando entendemos os riscos e aprendemos estratégias de prevenção, conseguimos substituir parte da ansiedade pelo planejamento. Isso nos dá mais segurança para sair de casa, participar da vida em sociedade e permitir que nossos filhos explorem o mundo de forma mais protegida. O objetivo não é viver com medo, mas preparar a criança e o ambiente para que ela tenha mais autonomia ao longo da vida", afirma Debora Saueressig.
Para a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, esse cuidado não pode recair apenas sobre os ombros da família.
"A responsabilidade pela segurança de uma criança autista também é coletiva. Escolas, profissionais de saúde, espaços públicos, empresas e toda a sociedade precisam compreender que algumas crianças podem não perceber determinados riscos da mesma forma. Estar atento, acolher, saber como agir diante de uma situação de vulnerabilidade e oferecer ambientes mais seguros também é uma forma de inclusão. Uma comunidade que conhece essas características protege mais e julga menos.", explica Mayra Gaiato.
Ela reforça que o objetivo não é criar famílias com medo, mas construir uma rede de proteção.
"Autonomia não significa deixar a criança sozinha antes da hora. Significa ensinar habilidades, adaptar o ambiente e contar com uma sociedade preparada para reconhecer situações de risco e agir quando necessário. Quando todos entendem seu papel, a criança ganha mais oportunidades de explorar o mundo com segurança, desenvolver autonomia e participar da vida em comunidade.", conclui a neurocientista.












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